Na cultura popular, lobisomens não tem uma aparência tão padronizada quanto na cultura pop midiática, literatura ficcional, séries, filmes ou jogos. Mesmo em países europeus, o nome pode funcionar como um grande termo guarda-chuva para pessoas que se transformam em fera. No Brasil, onde o mito descende de Portugal, não é diferente.
Assim como no resto do mundo, os causos passados pela oralidade, em nossas famílias e comunidades, são a base de tudo, sendo o principal material no qual grandes pesquisadores utilizam quando buscam explicar uma criatura sobrenatural para o leitor. Para isso, define-se uma recorrência dos relatos e sua perpetuação através do tempo em uma determinada comunidade, uma pesquisa que possui uma metodologia que se baseia em diversos aspectos do contexto histórico e social de cada região.
Neste texto, estão listados 7 tipos de lobisomens relatados no país e entendemos que essa lista pode causar certa estranheza para muitos que pensam na forma mais básica da palavra. É sempre importante deixar claro que sua etimologia (Licantropo do grego lýkos, “lobo“ ánthrōpos, “humano“) já era usada de forma genérica na Europa a partir do século XVI e essa forma uso veio para o Brasil através de Portugal. Então, a palavra LOBISOMEM acaba sendo uma generalização usada para nomear esse mito que se caracteriza na transformação de um ser humano para uma forma animal, mesmo que não seja somente na forma de um LOBO.
Analisando diferentes pesquisas e buscando mais relatos orais sobre lobisomens, podemos listar algumas de suas formas e características que mais aparecem em diferentes tempos e regiões do Brasil.
Vamos conhecer algumas delas?
Faz sentido que a aparência mais comum do Lobisomem no Brasil seja a de seu parente mais próximo. A maioria esmagadora das histórias de lobisomem por aqui falam de um cachorro anormalmente grande com olhos “em brasa”. Na maioria das vezes, tem o pelo preto e é bem comum que digam que suas patas dianteiras são bem mais curtas que as traseiras, deixando o quadril da criatura mais alto do que a cabeça.
Talvez uma das características mais únicas do lobisomem no Brasil, já que ainda não encontrei exemplos nas versões europeias. Muitas histórias destacam que o lobisomem tem orelhas muito grandes, geralmente caídas e às vezes tão longas que se arrastam no chão. Em muitos dos relatos, essas orelhas ficam se batendo e produzem estalos altos, parecidos com palmas. Dizem que o bicho usa esse som de “palma” para atrair pessoas para fora de suas casas, que pensam ser um vizinho chamando.
Características de porco aparecem com muita frequência em lobisomens no Brasil, especialmente em estados da metade norte do país. Às vezes é um porco completo, grande, muito peludo e de pelo escuro, mas em muitos outros casos a criatura têm características de cachorro misturadas com porco. Ronca alto ao invés de uivar ou latir. Vale comentar que, especialmente no Pará, existem histórias do Vira-porco ou Homem-porco, que já são entendidos como outra criatura, mas que podem ter sido influenciadas ou ter influenciado nessa forma do Lobisomem.
Como o nome sugere, esses lobisomens têm ou o pelo ou a pele amarelada, pálida, levando para a forma de monstro a aparência adoentada que muitas pessoas que se transformam em lobisomem possuem. Podem ser extremamente fedidos, ainda que essa característica também apareça bastante em outros lobisomens brasileiros. Na Região Sul, apesar de também existir o homem doente que vira lobisomem, surgiram no último século histórias de imigrantes poloneses que viravam lobisomem e que tinham pelo amarelo (provavelmente uma associação com o cabelo loiro dos polacos).
Mesmo sem esse animal na fauna local, histórias de lobisomem com aparência de lobo sobreviveram por aqui, ainda que sejam bem menos comuns que outros animais. Também tem pelos escuros quase sempre e olhos vermelhos. No Paraná, alguns deles têm a característica marcante de andarem sobre 3 patas, esticando a quarta para trás como uma cauda. Essa descrição é idêntica a histórias de lobisomens em países germânicos, e provavelmente se espalharam com a imigração norte-europeia na região.
O lobisomem morto é, como o nome indica, uma alma-penada, que vaga sem rumo por não ter mais uma sina para cumprir. A diferença entre ele e um lobisomem comum pode ser apenas no comportamento (num geral bem mais violento que o de lobisomens “vivos”), como pode se apresentar também na cor do pelo, branco como um fantasma. São poucos os relatos sobre esse Lobisomem, mas ele provavelmente é uma adaptação do mito português do Corrilário, que pode, muitas vezes, ser a alma penada de um lobisomem.
Certamente o lobisomem mais bizarro da lista. Em vários locais do Brasil, há a ideia de que, quando um homem se transforma em lobisomem, seus cotovelos e joelhos se transformam nas patas do animal. Neste caso, o lobisomem anda literalmente sobre essas quatro juntas, com as mãos batendo nas orelhas ou com a cabeça tão encolhida que se esconde. Existem relatos onde ele se transforma em cachorro, mas em outros ele simplesmente segue em forma humana, podendo correr de maneira inexplicavelmente rápida.
DICAS DO FOLCLORE BR!
O mistério do Lobisomen
Filme realizado na oficina de introdução a documentário para jovens Desvendando a Serra Grande 2 na comunidade Bom Jesus do Vermelho - Santa Rita de Ibitipoca MG. Este filme integrou a Mostra SACI 2026.
Vermelho Sangue
Analisamos a primeira temporada da série original do Globoplay que junta vampiros portugueses e lobisomens-guará, dominou nosso coração em um lugar muito específico: o de poder admitir diversos gêneros em uma fantasia nacional. Apesar da série deixar de lado uma ótima oportunidade de adaptar o lobisomem da nossa cultura popular, a produção entregou um produto de entretenimento impactante tal qual muitas séries gringas com grande números de fãs mundo afora.
Sobre o Lobisomem-Guará
A análise do fenômeno estético de um tipo de lobisomem na forma de um lobo-guará, criado em muitos quadrinhos, livros e série, vale um texto separado, mas Anderson Awvas fez um vídeo curto explicando um pouco do assunto para as redes do Folclore BR.
SE O LOBISOMEM BR NÃO É LOBO POR QUE NÃO MUDA O NOME DO BICHO?
Neste outro vídeo curto tem outra explicação respondendo a essa pergunta no canal do Folclore BR.
Fontes:
Antologia Ilustrada do Folclore Brasileiro: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso
Antologia Ilustrada do Folclore Brasileiro: Estórias e Lendas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina (Tomo II)
Assombrações do recife velho (FREYRE)
Bestiário Tradicional Português (MATOS VALENTE)
Dicionário do Folclore Brasileiro (CASCUDO)
Estórias de Lobisomem: regionalismo e folclore (PONGETTI)
Lendas e Contos populares do Paraná
Lobisomem: Assombração e Realidade (TAVARES DE LIMA)
Obras Completas de Hélio Serejo Vol.2 (SEREJO)
Poranduba 98 - Causos de Lobisomem
Relatos recolhidos por inbox ou pela internet
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. 3. ed. São Paulo: Global, 1947.
LEITE VASCONCELLOS, José. Tradições Populares De Portugal. [S.l.]: Livraria Portuense de Clavel & Cia , 1882.
VEEN, Abe van der. Het vreemde gedrag van de Nederlandse weerwolf. Disponível em:<https://abedeverteller.nl/de-vreemde-gedragingen-van-de-nederlandse-weerwolf/>. Acesso em: 22 set.. 2026.
SHAWN. French Canada’s odd tales: from the Loup Garou to the Devil’s Canoe — Introduction to International & Global Studies. Disponível em: <https://www.introtoglobalstudies.com/2021/10/french-canadian-folklore-the-loup-garou-and-the-devils-canoe/>. Acesso em: 25 set.. 2026.
Texto e arte: Lorena Herrero (HET)
Ilustradora e quadrinista brasiliense, formada em Design pela Universidade de Brasília (UnB) e mestranda em Antropologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Autora da série de textos ilustrados “Guia Brasileiro de Monstros” e das histórias em quadrinhos de ficção folclórica e cotidiano “Sétimos Filhos” e “Sétimos Filhos: A Espada de Miguel”. É membro do coletivo cultural “Folclore BR: Uma Nova Visão” e auxilia na execução e organização de atividades educativas por meio de plataformas digitais.
Revisão e composição: Anderson Awvas






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