Este texto foi escrito em parceria com a Anne Quiangala, do incrível Preta, Nerd & Burning Hell, ele também pode ser lido no substack!
Já reparou no quão difícil é a gente se organizar?
Pensa no condomínio, na fila do ônibus, na coordenação da escola ou em qualquer lugar onde precisamos conviver e tomar decisões coletivas. Parece que sempre há alguém que não quer respeitar regras, que quer atrapalhar o calendário, furar fila ou falar mais alto. Nos sentimos desempoderados e essa frustração, muitas vezes, nos leva a dois caminhos: o desejo de punição ou derrotismo — “já que é desse jeito, então é melhor deixar o parquinho pegar fogo mesmo”.
Por um lado, quem está nas margens não aguenta mais ser sujeito hipotético e ter que negociar identidades nos ambientes que supostamente deveriam acolher. E por outro lado, quem está mais bem colocado na sociedade sente um afã de futuro, de radicalidade que vem sendo frustrado.
Nisso, os laços vão se desgastando e nos tornamos um arquipélago de pequenos ressentimentos, acusações, demandas e críticas pesadas. Ilhas que não conseguem encontrar um lugar comum para dialogar possibilidades, negociar e avançar coletivamente.
Porque sim, é doloroso demais ter que explicar tanto o significado histórico das conquistas, a importância das identidades e da representatividade. Sentir tristeza (e mesmo desolação) em tempos difíceis é absolutamente compreensível. A sua raiva, frustração e vontade de jogar tudo pro alto são entendíveis, mas essa não pode ser a única resposta possível.
Derrotismo não é o mesmo que lucidez.
Há sempre outra alternativa, sempre algo que possamos fazer. Hoje a gente precisa transformar a raiva e a frustração em reconexão. Nosso discurso, intenções e práticas estão alinhados? Ou uso termos pejorativos e de baixo calão para falar de alguém ou de um grupo de pessoas? E se sim, por quê? Se consideramos certo vocabulário aceitável, fica difícil abraçar o diálogo.
“O pobre de direita” é o espantalho da direita que não é pobre, mas que precisa que a gente coloque a culpa em alguém enquanto ela continua manipulando as nossas estruturas sociais e políticas para ganho próprio.
Mas se em vez de buscarmos justificativas, vilões e figuras para expurgar nossa frustração a gente fortalecesse as conversas no nosso campo? Olhassemos pras diferenças de outra forma? Sem acusações, sem replicar o poder que tanto criticamos? Se déssemos atenção a causas que não são nossas diretamente?
De que adianta nós ficarmos em cima de um suposto pedestal de superioridade moral se nos recusamos a conversar e entender aqueles a quem chamamos de massa de manobra? Esse é um termo utilizado tanto pela direita quanto pela esquerda, e que esconde em ambos os casos uma classificação hierárquica que coloca o suposto “pobre de direita” num lugar de inferioridade humana.
Quem está nas camadas mais precarizadas do mundo social, muitas vezes, não vê alternativa, porque sabe que vai sofrer de qualquer modo. A linha de frente oferece uma experiência que grande parte de nós sequer compreende, mas aprendemos a descrever e a supor usando teorias e modelos. Com isso, a hierarquia se naturaliza no modo de expressar as ideias.
Neste segundo turno, e de preferência daqui pra frente, a gente precisa conversar e se reconectar com aqueles que estão ao nosso alcance. Não o bolsonarista fiel que nunca vai mudar de ideia, mas o colega ou o conhecido com quem você consegue dialogar. Escutar quais são os anseios, os medos, as necessidades e entender o ambiente onde ele existe na sociedade para daí estabelecer a conversa. O povo, de maneira geral, quer ser ouvido. A gente sabe que a direita não nos escuta, então por que a gente também se recusa a nos escutar? Você, brasileiro, é parte do povo.
O resultado do jogo ainda está em aberto. Não temos o privilégio de parar e de aceitar o cenário que ameaça. Nossa única opção é seguir em luta, nos organizando e mobilizando ações de diferentes formas.
Nossa maior arma sempre será estarmos todos lutando juntos, juntas e juntes.
Até mais!




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