Neste episódio de Cinema Elysée, Franz, filme de 2025 com direção de Agnieszka Holland.
A personalidade de um filme se faz com as partes que compõem o seu modelo. A luz expõe pelas entranhas, este talhe bem-feito pelas partes que o moldam. E nele vivem também outros valores que lhe dão a forma, que ajusta, os cenários, se é feito com tomadas externas de uma cidade sempre balizada pela excelência nos degraus da iluminação. E ao figurino dos personagens se molda um comportamento, vestido pelas suas beiras, e, no seu interior, é preciso que haja a força de um ator que o ilumine na sua interpretação. Neste belo filme, Franz, desmembrando a personalidade e o caráter do grande escritor moderno, Franz Kafka, é construído pela sua fotografia equilibrada nos campos de luz, tanto de fora como de dentro.
Correndo nesta trilha, a fotografia é mostrada na existência de um personagem, que, para molda-lo, se faz pela escritura de um roteiro que entre com maestria por dentro de uma personalidade deste porte e tamanho. Que haja luz: Franz, o nome deste filme, corre pelas ruas de Praga entranhadas no psiquismo e caráter de um personagem de tamanha complexidade com a luz que lhe é própria; o fosco, o opaco, a sombra em matizes compensando. Como grande escritor, a sua marca circula pelos seus escritos que são o argumento que dá sustentação, nesta luz vão desfolhados ao longo da película, através de um auto discurso revelando pela sombra, a escuridão desta personagem, e pela mirada exterior, a opinião das pessoas com quem conviveu e pela presença dos contemporâneos focando a busca angustiante pelo seu argumento de vida. Sobretudo pelo testemunho de pessoas próximas e de seu grande amigo Max Brode. Neste roteiro está correndo também a opinião da diretora, enquanto vai mostrando nos gestos a medida deste corpo tropeçando em vida pelas ruas, pelos interiores de sua casa e de seu temperamento massacrado pela presença aterradora de um pai tirano – o que conformou a sua personalidade fugitiva e embrenhada no caos e nas distorções do mundo, motivo mais que suficiente para entender uma boa parte da produção deste escritor. Aqui mostrada com ampla condição cinematográfica. E, finalmente, como ele é visto hoje com sua celebridade e como tal motivo do fetiche turístico que se espelha pela sua obra, seu caráter e seu fantasma pela cidade que o glorifica: Praga em seus caminhos de uma cidade encantadora, mas, aqui em suas vielas e cantos sob esta luz fosca que é uma lanterna pálida quando projeta este caráter arredio, quebradiço, ao mesmo tempo a doença que o matou pela fragilidade de seu organismo, vai quebrando a força da vida lutando contra uma existência massacrada, ainda mais debatendo-se com a sua comunidade contra a questão judaica neste pano ao fundo da segunda guerra.
Resultado de todos estes valores, a constituição de uma personalidade extremamente bem colocada e explorada, neste filme cheio de nuances de brilhantismo, na dimensão do caráter cavando esta luz tênue, projetiva das sombras bastante definidora do personagem no estilo que ele carregou por onde andou até a sua derrocada final.
A grande diretora Agnieska Holland, realizadora de outros filmes de excelência: Filhos de Exclusão, O Segredo de Beethoven, O Jardim Secreto, alguns de sua imensa cinematografia, faz este último de 2025 com grande atuação de Idan Weiss e Peter Kurth nos papeis de Kafka e do pai.
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