Neste episódio de Cinema Elysée, Antonio Sergio Elysée fala sobre Odisseia, Filme de Christopher Nolan, atualmente nos cinemas.
Não se sabe como a grande obra da humanidade, o primeiro romance escrito, se estabeleceu. Se foi juntando relatos ao pé de uma conversa, de uma reunião de aedos transferindo contos e relatos, se foi obra de alguém que acabou reunindo toda essa conversa em um apanhado escrito — tendo a figura do cego Homero como catalisador desta tarefa imensa. O fato é que, até hoje, é tido como o romance em prosa e verso ilustrador do gênio criativo que orientou as letras no caminho da transposição literária.
Transferir tal aventura literária ao plano da linguagem cinematográfica impõe desafios e méritos, sempre divididos, pois é impossível guardar tamanho repertório, uma vez que os acontecimentos, tantos, desfilam ao mesmo tempo. Projetar uma obra magistral é um enorme desafio. Neste filme de Christopher Nolan, acontece isto. Predicados espetaculares na apresentação de cenários grandiosos de batalhas e fúrias marítimas, multidões, momentos aterradores e catástrofes, assim como a transcrição dos episódios maiores que compõem a narrativa, vão desfilando sem prejuízo da linguagem original; talvez até mais, visto que os recursos do cinema são incontáveis, e uma obra desta envergadura dá permissão ao uso grandiloquente.
Mas, sobretudo, pela capacidade do grande diretor de ir enfiando a narrativa sem respeitar o contingente histórico, indo de uma situação a outra em seu velho estilo de ir contando a história, misturando os tempos e situações sem perder o fluxo da narrativa, dando ênfase ao ritmo e à intenção, o espetáculo transcorre nas várias mensagens como se fosse uma embarcação à deriva; aí, talvez, o maior mérito deste espetáculo onírico, cheio de intenção, tentando conjugar filosofia, a mensagem literária e a junção da aventura em parte do seu trabalho, sempre original.
Muitas vezes usa o tom baixo nas falas e nas cores para preservar a intimidade no texto, uma vez que a moderna dramaturgia traz para o interior a compreensão do assunto. Talvez a transposição visual mais bonita do filme seja a imagem iconográfica do cavalo de Troia saindo das areias como se viesse do fundo do tempo, emergindo das areias e com suas patas alcançando o céu em um voo espetacular no tempo.
Entretanto, a composição do elenco se enfiou em uma roubada. Matt Damon jamais é Odisseu. As deusas carecem de envergadura para se projetarem em semelhantes personagens. Escapam desta falácia os personagens de Calipso e Circe, nas interpretações de Charlize Theron e Samantha Morton. Quanto aos personagens mortais, não há nenhuma qualificação que os desmereça: Anne Hathaway, a Penélope; Tom Holland, o Telêmaco; John Leguizamo como Eumeu; e Elliot Page como Sínon. Mas vale lembrar, ainda, a histórica interpretação de Kirk Douglas no papel-título, na produção italiana em filme de Mario Camerini e Mario Bava, de 1954.
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