Os tempos são outros e, como todos eles, modificam os acontecimentos sob o seu nariz sem que você dê conta do novo aroma. Isto acontece com a grande obra da humanidade – a Odisseia – do cego Homero, tido como o grande inventor da linguagem moderna em sua formação do épico cantado. Em seu aspecto dramático, desmembra a expressão realista com seu cânone de aspecto mundano – a expressão Romance de Ítaca, cunhada pelo escritor Carpeaux com a origem clássica da epopeia moral. Então, este filme de Christopher Nolan vem trazendo do fundo do tempo, com as sombras, o registro que faz o seu papel de assombrar, enquanto conspira e eleva, ao mesmo tempo atenua, no registro de um realismo contido, este pilar da literatura ocidental, mas cinza neste filme, quando quer acrescentar outros matizes de clima emocional, nas interpretações dos episódios, a este relato célebre, tentando ligá-lo com motivações atuais.
Muitas vezes temperando a febre dos acontecimentos, mas, principalmente, unindo situações e dando razão a outras, o que modifica tanto o relato como o grau no desenho deles, com o acréscimo e mesmo a ausência de outros fundamentais do texto original. Isto seria estranho, não fosse justamente a intenção, desde os séculos anteriores, quando tantos relatos foram acrescidos à obra final da Odisseia, ainda que não fosse esta a questão que permite a abordagem sob outra ótica de semelhante assunto tão relevante. O que não pode acontecer, e nem dar validade a este filme, é deixar de dar importância ao sentido profundo que, nestes tempos da presunção da filosofia estoica, o prêmio desta transposição fílmica não seja o advento de uma nova filosofia, na elucidação da humanidade ávida a novas significações, sem que o sentido profundo da obra original deva estar presente: as questões da conversão de um herói e figura tácita da humanidade, presente em todos nós até os dias de hoje.
A vaguidão balança em sua essência, dado o estilo dramático aqui posto, além do fato de limitar certos episódios e ampliar outros, misturando-os e sujeitando-os à margem das cenas da beleza e profundidade da mitologia, aumentando, ao lado, o material das batalhas, duelos, mortes e catástrofes. Esta epopeia de sentidos amontoados, tendo cada um sua significação permanente, dá asas ao desconforto em qualquer adaptação. Salvos estes ingredientes clássicos, para não dizer eternos, pode-se encher ou esvaziar um pote de resultados; neste filme, especificamente, a bolsa das qualidades ameaça mais do que as desvantagens. O resultado das contas se esvazia quando se quer tudo cheio, em vista da profusão que arrebata, deslumbra ou ilude. No caso das interpretações dos personagens, com registro buscado no interior das falas como se fosse da dramaturgia contemporânea, empobrece a figura deles se o eco histórico que pretende não se desmanchar na autoridade que o mito lhes confere. O que dizer do pragmatismo da construção do grande filme americano, cujo espelho é a ação, seu privilégio permanente, que não tem como objetivo completar o outro lado do pote?
O que, ao final, mesmo com todos estes arroubos, faz com que o filme seja oferecido na bandeja sempre incompleta. Nesta costura de sentidos embrionários, fica a dever diante desta obra imensa. Nesta intenção, a imagem mais bonita do filme é a iconografia do cavalo de Troia emergindo das areias e suas patas alcançando o céu em um voo espetacular, propagando a lenda. Onde está a causa de, ainda hoje, nutrir e desejar falar desta grande obra? O desejo fundamental de entender a humanidade e sua época, que vai passando sob o nariz.
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