O movimento
Existimos no infinito do tempo e do espaço que chamamos de universo, por mais que muitas vezes estejamos “sentados, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”, nossa mãe terra cuida de nos movimentar girando em torno de si nos proporcionando o dia e a noite, dando volta em torno do sol definindo as estações do ano, vagando junto com o nosso sistema solar e nossa galáxia pelo infinito frio e escuro do universo, tudo isso sem nos dar a mínima satisfação de para onde vamos. Nosso corpo também se move, nossas células, moléculas e átomos, mais as bactérias e outros seres que nos habitam estão em constante movimento. Em suma, mesmo que eu me estacione há muita coisa se movimentando em torno e dentro de mim.
Rita Von Hunty, uma grande pensadora de nossa cultura, em resposta a uma pergunta sobre quem ela era, disse: “...quem a gente é nos estaciona, quem a gente pode ser nos movimenta...”, daí juntei essa resposta a um conceito do filósofo Heidegger chamado “facticidade”, que é “a condição concreta da existência humana de estar ‘lançada’ no mundo, em meio as circunstâncias históricas, sociais, geográficas e biológicas que não escolhemos”, existimos sem ter escolhido nascer em um determinado corpo, família, época, país ou condição socioeconômica. Então penso que esse sujeito que consideramos ser, em grande parte é um assujeitado pelas condições em que nasceu e pelos desejos daqueles que o receberam e conviveram com ele até agora, daí podemos ficar estacionados ou vir a ser outra coisa.
O sofrimento mental que se revela nos sintomas que nos causam mal-estar tem tudo a ver com as nossas mentes, ou como prefiro chamar, nossas almas, muitas vezes estacionadas naquilo que foi feito de nós até aqui. Para nos livrarmos do que nos faz sofrer é preciso movimento, fazer algo a partir do que foi feito de nós. Um vir a ser, mesmo sabendo que teremos que enfrentar o medo e a culpa que nos foram transmitidos no decorrer de nossas vidas. Na insistência de ficarmos estacionados naquilo que chamamos de identidade, que foi construída pelas nossas identificações desde que nascemos, podemos nos deixar ficar presos ao saudosismo das paixões alegres do passado ou aos traumas das paixões tristes que as lembranças nos trazem, isso somado à ansiedade do futuro que apenas idealizamos nos faz deixar de viver onde a vida acontece, que é no presente.
Não vamos salvar o mundo e nem mesmo nos salvar, precisamos apenas de viver e quem sabe o nosso movimento, nosso vir a ser, poderá nos levar ao valor humano da troca do amor, da capacidade de nos relacionar, de contar histórias, “somos aquele animal que sabe sonhar sobre aquilo o que ainda não existe, isso é poderoso e lindo”, quando somos movidos por intenções amorosas somos capazes de construir o futuro no presente.
Como nos diz o pensador indígena Ailton Krenak, precisamos deixar de ser verdadeiros parasitas comendo a terra, estacionados na ilusão de que a terra foi feita para nós e reconhecer que somos filhos da mãe terra. Estacionados nesse modo hegemônico de vida que prioriza produzir/consumir não há possibilidade de saúde mental. Da mesma forma que nossos músculos se fortalecem com o exercício físico, nossas almas só poderão atenuar o sofrimento se movendo na direção da criação autoral de nossas vidas.
Em última instância é preciso, como Zaratustra nos pede em “Assim falou Zaratustra” de Nietzsche, realizar a “transvaloração de todos os valores”, nos movendo na direção “do criador que busca cocriadores para escrever novos valores em novas tábuas.”.
“Dedico a crônica de hoje aos que se movem.”

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