Alma de criança
No mês de outubro, devido ao dia comemorativo dedicado às crianças, fala-se muito delas, o que não deixa de ser uma grande oportunidade de se discutir sobre a infância. Mas hoje quero falar de outra criança, que não tem a ver só com uma determinada fase do desenvolvimento humano, pretendo refletir sobre a alma, o espírito da criança. Para começar vou pegar carona no primeiro discurso de Zaratustra, denominado “Das três transformações”, na primeira parte do livro “Assim Falou Zaratustra” de Nietzsche.
No referido discurso Zaratustra enumera três transformações do espírito: “como o espírito se torna camelo, o camelo leão, e por fim, como o leão se torna criança”. O camelo é aquele espírito que se ajoelha reverenciando as cargas que lhe serão colocadas nas costas e que vão transformá-lo em “herói”, o leão surge quando em seu deserto o camelo se cansa e resolve reagir lutando contra aquele estado de coisas, mas falta se tornar criança para se encontrar com o sagrado “dizer sim” para que “o seu mundo ganhe agora aquilo que foi perdido para o mundo.”.
A partir desse discurso quero fazer uma consideração sobre o que me parece um dos gatilhos para que nossa saúde mental comece a ficar prejudicada, é quando num belo dia ouvimos: “Você não é mais criança, comporte-se feito um adulto!”. Daí partimos para ser camelo no mundo e carregar todas as tarefas, obrigações e culpas de nossa civilização, alguns morrem antes mesmo de sair desse lugar, outros chegam a se tornarem leões e passam a enfrentar os dragões civilizatórios numa luta inglória baseada em modelos pré-estabelecidos de revolta, mas só quando nos tornarmos crianças e “dissermos sim” ao lúdico, ao acontecimento, entrando em experimentação, nos colocando a prova, descobrindo e inventando o nosso próprio modo de vida é que teremos alguma chance de sofrermos um pouco menos.
Infelizmente, desde cedo, andamos produzindo uma criança sob uma pedagogia das forças do capital, que se preocupa em nos produzir primordialmente como seres fortes no campo econômico, quase sem nenhuma força no campo político enquanto “pólis”, e é na “pólis” que estão nossas relações com o coletivo, a ética, a estética e a natureza. A prioridade das famílias é produzir uma criança sadia e forte no campo econômico para obter “sucesso”, mas até por isso mesmo essa criança perde a força no campo da “pólis” e pode ser condenada a ser um camelo ou no máximo um leão pelo resto da vida.
Por outro lado, também percebo que temos herdado algo das crianças, que é a infantilização da vida, quando enquanto adultos nos agarramos a uma vida dicotômica de certo ou errado, sucesso ou fracasso, num eterno preto ou branco sem levar em conta a complexidade dos diversos tons de cinza que a vida nos apresenta.
Nossa saúde mental anda mesmo é precisando de inverter nossas heranças de criança, precisamos ficar com a produtiva capacidade lúdica de criação e invenção e de abandonar a inocência que infantiliza nossa existência. No lugar de adultos que simplificam o complexo em posições de que só é isso ou que só é aquilo, fazendo “birra” quando contrariados, precisamos criar espaço para a reinvenção de nós mesmos diante da complexidade do viver, porque além de nos reinventarmos é preciso nos responsabilizarmos por nossas invenções.
A ética para com nossos desejos que não nos permite declinar dos mesmos é que pode vir a atenuar nossos sofrimentos, mas para que tal coisa aconteça precisamos da coragem da experimentação, da experienciação e da criação das crianças para poder, quem sabe, fazer da vida uma obra de arte. Um poeta já disse que “o artista é uma criança que insistiu”. Então, nossa clínica pela borda vem procurando abandonar a criança infantilizada e abraçar a criança criadora pelo bem de nossa saúde mental.
“Dedico a crônica de hoje à coragem de nos reinventarmos.”

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