A vitória é uma conquista para poucos, para pessoas assim como ele: inteligentes, íntegras e que se destacam em meio aos simplórios. Por isso ele havia sido escolhido para descobrir a tal arma secreta dos pixotes.
— É claro que eles vão achar um jeito de trapacear! — Matheus estava deitado na cama, arremessando a bolinha anti-stress várias vezes.
— Mesmo se conseguissem colar… Não teriam como serem mais rápidos que a Fernanda — Pedro deu de ombros, como sempre, sem tirar os olhos daquele livro estropiado que lia tanto.
Os dois não paravam de tagarelar desde que ficaram sabendo do complô dos pixotes, deixando a imaginação correr solta por todo trajeto de volta para o quarto. Mas não importava o que fosse, eles descobririam e acabariam com essa tal arma secreta de qualquer jeito.
Fernanda era imbatível, sem dúvidas, afinal era para isso que servia aquela “Sininho da vinte e cinco de março”. Se não fosse isso, eles já teriam se livrado dela há muito tempo. O que queria dizer que eles não pagariam para ver o seu fracasso, não se eles pudessem impedir.
Então, Navarro vestiu a blusa preta de sua marca favorita, ajeitou o relógio com pulseira de couro que ganhou no Natal e encarou os dois patetas que ainda estavam discutindo. Matheus havia chamado a atenção de Pedro o suficiente para ele largar o livro sobre o colchão sem marcar a página.
— Seguinte — Navarro colocou o escapulário que usava diariamente — Isso aqui vai distrair eles o suficiente pra gente descobrir o que estão escondendo…
Ele ergueu o papel dobrado na altura da cabeça, era a lista de afazeres da semana que, a pedido do presidente da turma, virou um bilhete único com acesso exclusivo à biblioteca. Tudo o que eles tinham que fazer era garantir que os pixotes não terminassem as tarefas a tempo.
— E como você pretende fazer isso? — Pedro recostou na cabeceira com as sobrancelhas erguidas. Navarro odiava aquele tom.
— Vamos ter que dar um jeito! — disse entre dentes.
— Não deve ser tão difícil — Matheus parou para analisar a bolinha de borracha, como se procurasse por algum defeito — Só atrapalhar eles…
— Eles não são imbecis, Matheus — Pedro revirou os olhos.
— Você acha?
— Não é uma má ideia — Navarro deu um passo para frente e Pedro bufou — Vamos, não temos o dia inteiro!
Ele foi na frente com o peito estufado, sentindo o escapulário roçar no peito a cada virada e ouvindo nada além do som dos seus passos e dos ares-condicionados. Então, o rapaz abriu a porta violentamente, deixando a maçaneta se chocar contra a parede da biblioteca, e todos os olhares se voltaram para ele como tiros de canhão. Seus lábios naturalmente se curvaram para cima ao ver o desprezo dos pixotes.
— O que querem aqui? — Andrézinho colocou as mãos nos quadris e tentou engrossar a voz.
Navarro sabia que se quisesse ainda poderia assustá-lo, mas, no fim, respondeu qualquer coisa, ouvindo o riso dos amigos atrás de si, e balançou a lista de tarefas na cara de André, que a arrancou de suas mãos rápido demais. De repente, os olhos dele se arregalaram e, em seguida, se estreitaram.
— Isso é ridículo! Não é nossa vez! — e ali estava a presa, caída na armadilha.
— Diga isso para a coordenadora — Navarro deu de ombros, com o sorriso cada vez mais largo. — E você conhece as regras, tudo pronto até às dezesseis…
Ele não segurou a risada que se formou no fundo do peito. Eles só precisavam esperar a biblioteca esvaziar para encontrar o segredo dos pixotes.
Matheus e Navarro foram direto para a mesa de sinuca, enquanto Pedro sentou com as pernas no sofá para ler aquele livro velho outra vez. Haviam acabado de dar a primeira tacada, quando um grupo de pixotes atravessou o corredor às pressas, seguindo direto para o andar de cima. De repente, um segundo grupo passou por eles tão apressado quanto para chegar ao quintal.
As cabeças baixas e os ombros retraídos fizeram Navarro e os outros segurarem o riso, soltando apenas o ar pelas narinas. Como poderiam se cansar de algo assim? Ora, esse era o lembrete de quem eram e de onde pertenciam.
Então, o peito estufado e o sorriso confiante desapareceram como o fim de um nevoeiro no momento em que Andrézinho e a loira maluca apareceram no corredor. Eles sussurravam para o bolsista e a outra novata, Bruna, pelo que Pedro havia lhe dito. Infelizmente, naquela distância, era impossível saber o que estavam dizendo.
— Cara, é sua vez… — Matheus estava apoiado no taco, tão desanimado quanto ele.
— Shhh! — Navarro deu dois passos em direção à porta, mas não era o bastante.
Ele cogitou disparar até eles e exigir respostas, mas sabia que aquilo não o levaria a lugar nenhum, pelo contrário. Porém, antes que pudesse pensar em outra coisa, Gabriela e André desapareceram na cozinha, restando os outros dois pixotes no único lugar em que eles não poderiam entrar, a biblioteca.
— Droga! Precisamos de outra ideia! — ele jogou o taco sobre a mesa de sinuca.
— Eu disse que eles não eram tão estúpidos… — Navarro quis enfiar a cara de Pedro naquele maldito livro, mas Matheus não deixou.
— Vocês viram que é a Sarah que está lá em cima? Ela gosta mesmo de puxar o saco da coordenadora, né?
Pedro ergueu os olhos lentamente, havia um meio sorriso em seu rosto e Navarro sabia o que significava. Ele estufou o peito, ajeitou a blusa amarrotada por Matheus e sentou na banqueta mais próxima, com a atenção 100% voltada para o amigo.
— Matheus tem razão — Pedro fechou o livro — Ela vai ficar “p da vida” se os pixotes estragarem alguma coisa no quarto da coordenadora…
Navarro sorriu satisfeito enquanto Matheus olhava de um para o outro.
— Não entendi… — disse o jogador com uma careta, mas eles não tinham tempo a perder.
— Vamos! Temos trabalho a fazer!
Como sempre, Navarro saiu na frente rumo ao segundo andar e parou nos últimos degraus para espiar pelas grades do corrimão. O corredor parecia vazio e Sarah tinha acabado de entrar no quarto da coordenadora, era o momento perfeito.
Matheus voou para trancar os dois pixotes no banheiro coletivo, enquanto Pedro puxava o balde cheio para fora, ignorando os xingamentos atrás dele. Navarro, que já estava em posição, abriu a porta do quarto e viu a água arremessada acertar o tapete e uma parte da roupa de cama recém-trocada. O cheiro de cloro se espalhou rapidamente e Matheus soltou os pixotes bem a tempo de seguir os amigos escada abaixo, minutos antes de Sarah gritar furiosa.
— Olha o que fizeram! — ela berrava por cima das explicações, ao mesmo tempo que os estrelas gargalhavam no corredor de baixo.
Eles não podiam parar por aí, o grupinho lá nos fundos já estava quase terminando de limpar a sala de aula e não eram nem três horas ainda. Foi quando Matheus olhou para eles com um sorriso travesso.
— Quero ver eles tirarem o cheiro de ovo antes das quatro!
— Ótima ideia! — Pedro parecia estar se divertindo, finalmente — Podemos misturar com um pouco de terra pra terem que limpar de novo!
Assim sendo, eles correram até o campinho no lado de fora da casa, enchendo um saco com a terra seca, ao passo que Navarro foi buscar os ovos. No entanto, no momento em que colocou os pés na sala de estar, seu corpo travou e ele, desesperadamente, tentou conter o riso. O rapaz passou a língua sobre os dentes impecáveis e se aproximou da cozinha lentamente.
— Ora, ora… — ele se ancorou no batente da porta — Até que esse visual combina com essa sua cara de perdedora!
Gabriela franziu as sobrancelhas e Navarro a viu apertar o cabo do rodo com mais força, aquela imagem diante dele era impagável. O suor escorria da testa dela até o pescoço, formando um rastro nojento pela pele rosada. Para piorar, havia marcas escuras na camiseta dela, no decote, próximo da barriga e embaixo nas mangas.
— O que você quer, Navarro?
Ele riu. O cabelo dela estava preso em um coque mal feito e aqueles fiozinhos loiros pareciam se desprender a cada movimento dela. Era patético como o suor prendia as mechas soltas na base da nuca ou grudava os fios rebeldes na testa brilhosa, ainda mais com o rosto dela todo rosa, igual a um camarão torrado.
— Depois disso? Não preciso de mais nada! — ele saiu rindo para a garagem e só se deu conta de que havia esquecido os ovos ao dar de cara com Matheus e Pedro.
— Não tem? — Matheus estava desapontado.
— Tive uma ideia melhor… — Navarro não esperou pela resposta e seguiu para o quintal.
Enquanto Pedro e Matheus esperavam embaixo da janela, Navarro ensaboava a entrada da sala. E, ao seu sinal, os amigos estouraram o saco, jogando toda a terra no piso molhado, e atraindo a atenção dos pixotes, que saíram gritando vários palavrões. Pareciam animais selvagens correndo para alcançá-los, mas, ao passarem pela porta, escorregaram e caíram uns sobre os outros. O trio terrível fugiu pela sala de jogos, deixando as risadas ecoarem logo atrás deles.
— Ei, a biblioteca parece estar vazia! — Pedro lhe deu um tapa desleixado na barriga.
A porta estava entreaberta, revelando a sala escura. Era claramente uma armadilha, mas o que tinham a perder? Apenas seguiram na ponta dos pés e empurraram a porta com cuidado, realmente estava vazia.
— Não tem nada aqui… — Matheus se mantinha atrás de Navarro.
— Eles não são idiotas de manter à vista… — ele revirou os olhos.
— A gente nem sabe o que está procurando… — Pedro folheou um dos livros na mesa.
Odiava concordar com ele, mas Navarro tinha que admitir que a tal arma secreta poderia ser qualquer coisa… Ou alguém.
— Aqueles imbecis! — ele bateu o punho na mesa, fazendo os amigos darem um salto.
Nem tiveram tempo de perguntar, pois ele saiu pisando duro para o andar de cima. Pedro e Matheus se olharam confusos e o jogador foi o primeiro a sair, dando de cara com André no corredor.
— Ei, cuidado, imbecil! — ele desviou daquele amontoado de produtos de limpeza que o rapaz carregava.
— O que disse? — Gabriela saiu de trás do pixote com os punhos cerrados e Matheus se afastou, com a resposta engasgada.
André puxou a doida para longe, pedindo que se acalmasse e o rapaz bufou. Aqueles pixotes estavam ficando cada vez mais folgados e ele não deixaria isso passar em branco. Então, assim que os dois atravessaram a porta da sala de estar, Matheus puxou o balde com água que estava num canto qualquer e posicionou na entrada do banheiro, discreto o bastante para não ser visto do corredor. Era o que mereciam.
Enquanto isso, Pedro analisava com calma cada livro, cartão e caderno que sobrou naquela mesa. Havia uma caligrafia diferente entre os papéis, um garrancho que misturava letra cursiva e bastão na mesma palavra, porém, as frases eram muito bem construídas, quase como se estivesse lendo uma apostila ou um artigo científico.
— É, o próximo período será interessante…
Quando encontraram Navarro ao pé da escada, ele encarava a parede, praticamente imóvel, apenas mexendo o escapulário de um lado para o outro. Matheus chegou a dar uma leve cotovelada em Pedro, mas ele se recusou a falar qualquer coisa.
— Eles podem estar em qualquer lugar — Navarro olhou para os dois.
— O grupinho do fundo também sumiu… — Matheus levou uma cotovelada de Pedro e parou de falar, mas Navarro não parecia surpreso.
— Só pode ser um dos novatos… Mas quem? — ele encarou a parede de novo.
— Não é a Bruna… — Pedro se adiantou.
— Nem a maluca, ela ainda está lá fora com André — Matheus complementou.
— Impossível ser o carioca… — Navarro respirou fundo — Quem ainda temos?
— O japa e a ruiva — pelo que Pedro se lembrava.
— Vi o japa com os moleques lá fora… Mas — Matheus deu um passo para trás quando Navarro saiu disparado pelo corredor.
— Alguém viu a ruiva hoje? — os dois fizeram que não e correram atrás do rapaz emburrado.
— Eles só podem estar em um dos quartos! — Pedro girou nos calcanhares e correu escada acima, dessa vez era ele quem guiava o caminho.
Os três foram de porta em porta, colocando os ouvidos sobre a madeira, procurando por alguma conversa ou qualquer ruído que pudesse entregá-los. O que foi justamente o que aconteceu ao chegarem na porta de Sarah.
Podiam ouvir os sussurros sobre Manuel de Macedo, Gonçalves Dias e Bernardo Guimarães, todos os pixotes pareciam estar ali dentro.
— É sério que alguém acha que Os Miseráveis é brasileiro? — Matheus se afastou enojado e Pedro segurou a risada.
— Acho que se a gente deixar eles estudando, vai atrapalhar mais do que chamar a coordenadora — Navarro riu do comentário de Pedro, mas deu-lhe um tapa na nuca de qualquer jeito.
A coordenadora estava em sua sala, no andar de baixo, e não ficou nada contente em saber que os pixotes estavam amontoados em um único quarto. Foi uma questão de tempo até os estrelas escutarem a bronca lá em cima, além da ameaça de tirar as poucas regalias que os pixotes tinham.
Navarro estufou o peito novamente, caminhando como um herói para a sala de jogos, onde o restante do grupo os aguardava, sem conter o sorriso ao ver as carrancas dos perdedores descendo um por um depois do esculacho da coordenadora.
Quando seus olhos encontraram os de Gabriela, seus lábios se curvaram ainda mais para cima. Ela batia os pés nos degraus como uma louca, seguindo Andrézinho igual a um rinoceronte descontrolado.
— O dia amanhã vai ser interessante…
Estavam confiantes e tinham certeza de que Fernanda estava pronta para ganhar.






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