Eu não me lembro exatamente do Penta.
Quer dizer, eu sei onde eu estava, na sala de casa, com meus pais e meus irmãos, e eu me lembro da sensação de certeza, de já termos feito dois gols, de chupa Oliver Kahn, aqui é São Marcos porra. Eu lembro do Kaká entrando no último minuto com uma bandeira do Brasil e a sensação de que é isso, é nosso, estamos em casa, isso é a nossa coisa.
Nós celebramos? Talvez, provavelmente. A gente morava num lugar longe, com poucas casas ao redor, com as janelas fechadas com grades por fora, então não me lembro da sensação comunal que havia em 2002.
Mais do que tudo, porém, eu me lembro das madrugadas na sala.
Como a Copa foi na Coréia/Japão, lembro que eu, meus pais e meus irmãos deitávamos na sala, em sofás e colchões no chão, e dormíamos. E quando tocava o despertador a gente acordava, já usando nossas camisetas falsificadas da seleção, para ligar a tevê e assistir aos jogos do Brasil. Suponho que seja difícil juntar uma galera para assistir jogos às 3 da manhã quando se é uma família com três crianças.
Eu tenho muita afeição por essas memórias. Não pelos jogos em si — embora, eu admita, pelos gols de falta do Ronaldinho Gaúcho e do Roberto Carlos em jogos que não me lembro e não pretendo checar nem rever —, mas pelas noites na sala, a pequena aventura, a sensação curiosa e sonolenta de estar fazendo parte de algo maior.
Aquelas belas noites de vitória ocupam um lugar especial no meu coração. Ainda que eu mal me lembre delas.
*
Quatro anos antes, eu tenho lembranças esfumaçadas de um apartamento cheio de gente. Uma tevê pequena, uma sala apertada, eu andando pelo outro lado, meio ligado, meio não… O forte gosto amargo da derrota… Algo que eu não entendia, mas aceitava. Foi feio. Odiamos a França, odiamos o Zidane — uma tela pequena num mundo vasto. Uma tela tão menor que a janela que dava para a varanda, para as árvores, para o rio.
Que belo dia, que dia frio.
Beleza e amargor coexistindo.
Fabrico essa memória a partir de retalhos, mas ela parece vívida.
Quem quer que esteja lá agora sou eu, o eu de agora.
Mais uma camisa falsificada, tamanho infantil.
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Do Tetra, em 1994, não tenho memórias. Ou, se tenho, são ainda mais feitas de colchas de retalho. A casa de uns amigos na praia. Lembro de dormir. Eu gostava do cachorro que era o mascote. Gente gritando, um conforto na alegria compartilhada, sono.
Quando eu durmo, eu fico feliz. Até hoje.
Seria fácil explicar uma coisa com a outra.
Uma vida de segurança nas sombras a partir de uma bola no travessão.
Nunca odiei o Roberto Baggio.
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Em 2006, na mesma sala do que em 2002, mas em horários mais gentis, eu lembro de sentir raiva. Lembro de uma camiseta que eu tinha em que estava escrito JAPAN, e de usá-la durante algum jogo, e ir trocar porque não estava dando certo. Lembro de amigos às vezes, e de meus pais assistindo tudo em outro cômodo, lá em cima.
Lembro do gosto metálico na boca de ver a Itália comemorando seu título, aquele mar azul de cabelos longos e narizes como o meu.
Nessa época, eu já me conectava muito pouco com futebol.
Parecia um golpe duro, mas justo. Uma para eles, uma para nós. A próxima é nossa.
Quando eu era pequeno, eu morei na frente do Palmeiras. Aquele clube grande e vasto, todas aquelas grades verdes, as piscinas enormes, as aulas de judô.
Minha mãe sempre foi palmeirense e, como minha vó dizia, palmeirense roxa. O que eu achava muito curioso, porque o Palmeiras para quem eu torcia era verde. Era a mesma coisa que os azulejos brancos — por que não se chamavam brancolejos? Algo que eu aceitava, assim como o fato de que eu torcia para o Palmeiras.
Meu pai, por outro lado, era santista. Meu vô vivia pelo Guarujá, e acho que por isso ele era santista. Então meu pai foi santista, e algumas das minhas tias, eu acho. Meu irmão, também, em algum momento, decidiu ser santista. Os processos misteriosos que levam a essas coisas estão além do que eu posso entender, ou lembrar. Minha irmã também acabou palmeirense. Existe uma associação fácil de fazer aqui, mas eu não vou.
Eu me lembro de ligar muito. E por muito, eu suponho que queira dizer muito. Entre ler muitos livros e jogar pokémon no gameboy, eu lembro de sentar na sala da minha vó, por vezes sozinho, e ficar assistindo jogo na tevê com muita atenção. Época de ouro, Libertadores, patrocínio da Parmalat.
Meu amor por leite e bichos de pelúcia vem daí? Ou meu amor por futebol veio pela via inversa? As boas memórias de vitória, não tenho, embora façam sentido. Lembro de uma briga com os jogadores do Grêmio, de porradaria, e mesmo assim vagamente.
Lembro da goiabeira no terreno da casa da minha avó muito melhor.
Quando a gente se mudou para o interior, fomos para uma casa longe de tudo, desproporcionalmente grande, desproporcionalmente longe, com muito espaço, um chão gelado, uma mesa enorme. Um grande gramado.
Mas antes disso, minha vó se mudou para o interior, e nós vivemos um tempo com ela. No quintal havia uma goiabeira, uma fruta que, muito antes de eu odiar, me despertava a curiosidade por causa do Chico Bento. Não me lembro dela ter dado frutos, embora deva ter dado, em algum momento.
Lembro, muito mais importante do que isso, de subir nela, e ainda mais de que ela era uma das traves do gol.
Eu e o meu irmão jogávamos muita bola lá. Era um terreno inclinado, a goiabeira ficava na parte alta, e o resto era uma pequena ladeira. Mas havia outra árvore ali, e a distância delas, apesar de meio grande, era o suficientemente parecida com um gol. Jogar em dois era difícil numa inclinação daquelas, então a gente se organizava para fazer disputas de pênaltis. Mas era preciso drama. O contador de histórias dentro de mim queria histórias, então a gente escrevia num pedaço de papel o nome dos jogadores que iam bater os pênaltis, inventando nomes que a gente gostava, deixando os melhores, claro, para o final: Luke e Reif, que seriam os heróis ou vilões nacionais, a depender do dia.
Eu nunca quis ser jogador de futebol, e em parte porque eu já sabia como seria. Na vitória e na derrota. Pronto, perfeito, próxima coisa. Amanhã a gente joga mais.
*
No começo dos anos 2000 (novamente não quero estragar as memórias com a impureza da informação precisa), o Palmeiras caiu para a segunda divisão. Era fim de semana, e eu e minha família estávamos na casa de uns amigos, e alguém tinha colocado uma tv no quintal, pequena, passando o jogo… Uma tv que a gente mais usava para jogar videogame do que qualquer coisa, mas por algum motivo lá estava…
E eu me lembro de ser arrebatado com a sensação de impotência, de dor, de tristeza. Da inevitabilidade de perder. Chorei, de tristeza e de raiva, como acontecia. Chorei perante a injustiça. Não com eles, mas comigo.
Frustrada, também, e provavelmente na tentativa de me consolar, minha mãe (palmeirense roxa), me disse para não ligar. Que era um absurdo, que aqueles caras ganhavam uma tonelada de dinheiro para desistir e não se entregar ao jogo… Como se a culpa de tudo fosse apenas a de uma ética de trabalho ruim, uma falta de interesse no jogo. Ganha quem se importa mais.
Não me ocorreu que talvez eles também estivessem infelizes. Que o dinheiro que ganhavam talvez não fosse consolo nenhum perante a um ano inteiro de derrotas, de rasteiras.
Se era isso ou não, não sei. Não me lembro.
O que eu lembro é que a partir daí eu fui me afastando do futebol. Pelo menos na tv.
Um ano depois, quando o Palmeiras voltou à primeira divisão, eu fiquei feliz, mas vagamente. Ok, legal. Não assistia mais, e não voltei a.
A magia para sempre quebrada pela suposta falta de paixão.
Talvez seja daí que vem minha ética de trabalho inflexível, minha paixão dedicada pelo que eu faço. Como se eu pudesse acabar vencendo o jogo apenas por me importar mais, por tentar mais. Eu ainda sinto que estou perdendo o jogo na maior parte do tempo, mas enquanto estivermos dentro dos noventa minutos ainda não acabou, certo?
E eu certamente me importo mais.
*
Na casa para a qual nos mudamos havia um gramado grande. Uma parte dele virou, ou já era, um pomar com árvores. Mas em outra, meu pai ergueu com as próprias mãos dois gols. De bom tamanho, bem maiores do que eu e meus irmãos éramos na época. Três grandes toras pregadas com pregos enormes, três gols de verdade, cada um na frente de um dos alambrados que marcavam o fim do terreno.
Talvez seja daí que vem minha admiração por fazer as coisas com as próprias mãos. Não sei se foi a primeira gambiarra que eu vi, mas certamente foi a que mais me marcou. O que a gente não pode comprar, a gente constrói. Com madeira, criatividade e força de vontade.
Por mais de uma década da minha vida, eu e meu irmão jogávamos frequentemente ali. Às vezes com meu pai, minha irmã, às vezes com amigos. Mas na maioria das vezes só nós dois, cada um de um lado, em um gol, jogando gol a gol, chutando e defendendo e conversando.
Dando nosso jeito de ir buscar a única bola no terreno baldio do vizinho. Escalando o alambrado, passando por baixo do arame farpado, procurando no mato alto, tantas e tantas vezes.
Talvez seja daí que vem minha teimosia em não me deixar parar por obstáculos difíceis. Minha tendência de procurar soluções criativas, ou só de me enfiar no meio do arame pra ir buscar a porra da bola, mesmo que acabasse me arranhando no meio do caminho.
Minhas memórias também não são específicas, mas tenho um carinho especial por nossos pés cheios de lama nos dias frios, de lavar tudo na torneira gelada antes de entrar, das laterais dos pés ardendo de tanto chutar a bola, e as palmas de defender.
Quando penso nos hauflins que habitam Sha’alaria, sempre andando descalços, penso nos meus pés sujos de terra. Penso em chãos gelados e na grama entre os dedos. Penso no campinho que meu pai fez, e de tantos outros que eu frequentei por aí.
*
Em 2010, voltei para São Paulo para estudar, e fui morar com minha tia, no quarto que minha prima tinha deixado porque foi fazer intercâmbio.
Com dificuldade de me adaptar à cidade, à nova vida, às pessoas, eu passava muito tempo no quarto da minha prima. Tinha uma tv minúscula, com entrada VHS embutida, que imagino que ela devia usar para ver filmes. Quando o despertador tocava, de manhã, eu apertava o botão e deixava a companhia do jornal da manhã me ajudar a acordar.
Durante a copa, eu sentava na escrivaninha do lado da tv e assistia os jogos enquanto ficava no computador, ou olhava a janela. De alguma forma, o futebol me fazia me sentir menos só.
Mesmo sozinho ali, mesmo à beira de receber uma bela de uma bola curva da vida, mesmo com a decepção, outra vez, da derrota, minhas memórias da Copa do lado daquela pequena tvzinha da minha prima são boas.
Quando eu era bem pequeno, algum médico recomendou para os meus pais que eu fizesse judô. Algo a ver com eu não conseguir me conectar com os esportes em grupo, não ser bom de futebol. Eu devia tentar algo que dependesse mais só de mim, e tentei. No caminho para o judô no clube, passava pelas placas do aikidô e gritava Ai que dor!, e ria. Levaria ainda vinte e tantos anos e outras quatro artes marciais no caminho, duas na beira da faixa preta, para que meu caminho voltasse para o aikidô. Mas o chamado já estava lá.
Mas quando meu irmão quis fazer futebol, eu fui também. Era tão competitivo, todo mundo levava a sério, eu me sentia um pouco mal. No interior, parei, e meu irmão, que sempre jogou muito bem, foi fazendo em outros lugares. Mas eu ainda gostava, e jogava na escola, e não era ruim não. Meu melhor amigo era o melhor da escola, muito rápido, muito goleador, e eu gostava de jogar com ele.
A gente ligava muito. A ponto de chorar pelos nossos jogos.
Quando mudamos para a turma da manhã, eu parei de jogar bola porque odiava os garotos mais velhos. Não era mais divertido.
Gostava mesmo era de jogar com os meus amigos.
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Em 2014, a vida já era muito diferente de 2010. Eu já tinha conhecido o Fai, morava com meu irmão, e tinha minha própria tv na sala. No primeiro jogo da Copa, eu e o Fai ficamos sozinhos em casa, compramos um pedaço de salmão pra fazer sashimi, e uns doritos. Tomamos cerveja e assistimos tudo com aquela sensação cúmplice de duas pessoas que se conhecem muito bem, e se bastam.
Assistimos outro jogo com amigos lá em casa. O André (esse mesmo) estava cético. Com o jeito que estava jogando, o Brasil ia ter muita dificuldade com o Chile, e não ia ganhar de jeito nenhum. Faltava técnica e habilidade. Ele estava certo, é claro.
Mas para mim, nada disso importava. A única coisa que valia numa hora dessas era quem queria mais, quem se importava mais, certo? Copa se ganha com o coração. Né?
Acho que a Alemanha queria 7 vezes a mais que a gente.
Os bonés do Fuleco que alguém ganhou se tornaram símbolo de grandes tragédias.
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Algumas das minhas memórias favoritas da faculdade envolvem futebol.
Não assistindo jogos, essa paixão eu nunca reatei, mas jogando bola. No FutAV, a gente reunia várias turmas do Audiovisual e agregados para jogar sob o sol escaldante do meio-dia nas quadras que concreto do CEPE. Por um tempo não havia filmes, não havia arte, havia só um monte de gente (principalmente garotos, mas não só, não sempre) correndo atrás de uma bola que nem um monte de idiotas. Não era um lugar ruim para se estar.
(Ao contrário dos auditórios 1 e 2 quando todo mundo que tinha passado o horário do almoço jogando bola aparecia em cima da hora, suado.)
Correndo o risco de soar como clichê, a bola rolando cria uma conexão que vai além das palavras — e dos frames. Para alguém com uma dificuldade de se expressar com palavras, às vezes é suficiente.
Quase quinze anos depois, falando para meu irmão, que também fez ECA, sobre o filme de um amigo que gostei muito, falo pra ele do amigo. Ele não sabe quem é.
Pô, jogava FutAV com a gente.
Menor ideia.
É aquele que entrava forte no jogo!
Os olhos dele se iluminam: AAAH, O PÉ DE FOICE!!
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Eu lembro de pouco sobre a copa de 2018.
Copa na Rússia? Não me lembro quem ganhou. A camisa amarela tinha outro significado, outra conotação. O orgulho nacional, do qual nunca compartilhei muito, diluído, O orgulho do futebol, após o fiasco da última copa, inexistente. Se alguém teve fé, não fui eu.
Mas lembro de assistir todos os jogos, enquanto trabalhava… Das outras seleções, por cima do ombro, deixando o Sr. Radicchio secando tudo.
Sr. Radicchio é o secador supremo. Algo entre um coelho e um rabanete de pelúcia, veio a nossas vidas por meios misteriosos, mas se tornou um amuleto da sorte. Ele secava, e os times favoritos perdiam. Dava para confiar. Ficou conhecido entre os amigos, especialmente o Julio (Jujs pros íntimos), que dizia depois cadê aquele teu boneco lá?
Vindo para a casa dos meus pais, como vim hoje, para um jogo e trazendo ele, vim com ele no bolso, cheguei atrasado, coloquei ele no sofá… Só para ele imediatamente ser roubado pela Amora, a cachorra da casa… Corri atrás dela, salvei o rapaz, mas o jogo não teve tanta sorte.
Memórias que ficam e vão como água.
*
Na Copa de 22, fora de época, não tive muita fé. Lembro de assistir os jogos, mas pouco além disso. Lembro de olhar para a França, a força do time jovem, com garra, e achar que eles iam ganhar (relendo isso, percebo agora que isso foi em 2018, e eles ganharam. Esse ano foi a Argentina, ughhh.) Mais uma eliminação para nós. Mais uma decepção.
Depois de um tempo para de doer.
Depois de tanta decepção com o mundo por todo lado, que diferença faz mais uma?
*
Pouco mais de um mês atrás, recebo uma mensagem do Jujs.
Alou Lulu da pomerania
Venho por meio dessa te convidar para algo que ja tava pra te chamar faz tempo caso anime
Gostarias de ir jogar uma pelota? É ai perto da sua casa. Eu te busco e sua parte é por minha conta, o que me dizes?
Eu não jogava futebol desde sei lá quando. Certamente antes da pandemia. Mas adoro correr, e a oportunidade de passar tempo com meus amigos. Topei.
Nós vamos no carro, nós dois, conversando. Só por isso já vale o rolê.
O pessoal é tranquilo, leva um pouco a sério, mas tranquilo. Me chamam de West Ham, por causa da camisa que eu estou usando. A chuteira do Jujs no meu pé é um número maior, e sobra alguns dedos. Um rapaz pergunta meu nome, não sei o que dizer para ele.
Corro como um louco no primeiro jogo. De um lado para o outro, jogo com o coração, entrego tudo. Vou achando meu lugar. Não sou nenhum craque, mas tenho preparo físico, tenho coração. Faço um meio de campo ok, uma zaga decente.
Quando acabam os dez minutos, sento no banco quase morrendo. Asma? Só lembro quando corro que nem um maluco. Quero morrer. Quero chorar. A água do bebedouro não sai. Tem que pagar na cantina, claro. Fico puto. A estrutura é sempre assim — ah, os problemas estruturais.
Não consigo falar. Tudo dói.
Considero ir embora. É tarde.
Mas fico.
Quando meu time volta a jogar, meu corpo está um pouco recuperado. Lembro que preciso dosar a energia. Volto a me encaixar. Faço um gol, anulado por um chororô que não tem nada a ver com o lance. Tomo uma ombrada que faz meu sangue ferver. Jogo sempre contra o Jujs, e ele joga bem, ele é bom. Um clichê. Depois ele diz que é difícil passar por mim. Fico feliz.
Mais tarde, quase meia-noite, quando espero entre um jogo e outro, vejo no campo ao lado uma galera se preparando para jogar. Dois times de imigrantes, todos com os uniformes completos de seus países — duas seleções africanas. Eles jogam na quadra do fundo, menos iluminada, têm juiz, torcida e crianças. Segunda-feira meia-noite eles começam a jogar. Fico assistindo de longe.
No fim de tudo, voltando para casa, Jujs me diz: a melhor parte é poder correr como uma criança, né?
A melhor parte é poder correr como uma criança.
*
Alguns meses atrás, minha irmã compra uma camiseta do Palmeiras amarela, híbrida do Brasil. Ficou procurando por meses. No dia em que ela pega, vou na feira com meu pai e vejo a mesma camiseta, falsificada, vendendo por 60 reais na feira. Comendo pastel, penso em ir lá comprar. Só pra falar pra ela que tenho uma igual e custou 60 reais. Olho minha conta, desisto. Ainda é uma piada cara para mim.
Mais tarde, me arrependo. Era bonita.
Na semana que a Copa vai começar, me vejo empolgado outra vez. Sem ter pensado muito nisso até então. Nas Olimpíadas de Inverno, faço o mesmo: ligo a tv e deixo passando enquanto trabalho. Penso que vai ser o mesmo.
Decido em cima da hora fazer um Bolão da Maré Geek — sem valer nada, prêmios fantásticos e completamente imaginários —, só pra ver se alguém anima. Fico pesquisando plataformas, acho uma que não quer roubar nossos dados ou nos fazer apostar em bet. Faço todos os chutes imediatamente, de coração, chuto qualquer coisa. Passo a primeira rodada indo bem.
Ao longo dos próximos dias, me vejo hipnotizado. Continuo trabalhando, mas com todos os jogos passando, admirando os lances, secando as seleções européias, a argentina, torcendo e xingando. Me vejo tomado de arroubo pelo evento.
Continuo sem muita esperança pela seleção e pelo hexa, mas sempre há uma fagulha. É bom ganhar alguma coisa de vez em quando. Será que vai dar? Provavelmente não, mas não posso evitar torcer. Grito e xingo, não sou especialista em nada, não ligo. Me divirto xingando com os amigos no discord.
Conversando com um porteiro (não o novo, meu amigo na base do Endrick), ele me diz que não gosta de futebol. Pergunto pra ele se nem no jogo do Brasil. Ele diz que não se importa, nem liga.
Subo no elevador pensando que deve ser mais fácil assim. Mais solitário, também.
Chego outro dia para conversar com o porteiro da noite, que é sãopaulino fanático. Digo: vão te fazer trabalhar na hora do jogo, meu amigo? Ele fica muito animado. Algo que nunca vi. Corre para me mostrar que na sala de estar do prédio, das reuniões de condomínio, tem uma tv escondida atrás da porta. Ele liga e está passando um jogo. “Eu fico aqui assistindo, não dá nada. Fico vindo pra cá ver. Não perco uma. Tem que ver, né?”
Sorrio, sabendo que ele vai sair de férias semana que vem, e vai poder assistir a todos os jogos com ainda mais tranquilidade, sem ter que disfarçar.
Mais cedo, passando na costureira, vejo que ela está vendo o jogo no celular. Peço licença e pergunto quanto tá. Ela abre um grande sorriso. “Zero a zero ainda, meu bem.”
Volto para casa pensando que minha coisa favorita é essa possibilidade de falar com as pessoas. Esse algo compartilhado, essa porta de entrada entreaberta.
*
Enquanto escrevo esse texto, minha mãe relembra o jogo contra a Suécia em 94. Ela sentada na escada da casa da dona Meirinha, um gol de falta do Branco. A angústia. E eu dormindo.
*
Enquanto penso em concluir esse texto, estou sentado na sala da casa dos meus pais. Marrocos vence por 1 a 0 a Escócia. Estou torcendo pelo empate, que é o que coloquei no bolão (o empate nunca veio).
Acho que nunca vou reatar minha relação com o futebol profissional. Dá muito trabalho, leva muito tempo, muito investimento emocional. Eu tenho pouco tempo de sobra, pouca paciência. O Palmeiras não me emociona muito, embora ainda me considere Palmeirense (um Palmeirense verde-água, talvez). Eu gosto de histórias demais, do meu trabalho demais, e tenho pouca paciência para os Problemas Estruturais e todo o Capitalismo envolvido na coisa. Odeio propaganda e tantas outras coisas.
Mas quatro anos é um bom tempo para recarregar a energia e voltar a me importar um pouco. Sem nações e sem fronteiras, sempre fui e sempre serei, mas isso não significa que a gente não possa fazer uns times. Nós versus nós, mesmo que a gente odeie alguns argentinos e alguns franceses e alguns alemães e alguns ingleses… Pelo menos dentro do campo. Sou a favor de abolir as fronteiras, mas um pouco de bairrismo saudável não faz mal a ninguém.
Depois a gente toma cerveja todo mundo junto, tal qual na vida real.
Não tenho camisa falsificada há mais de vinte anos, e nunca tive uma oficial. Mas meu amor pelo amarelo é conhecido, então vai saber. Talvez, inclusive, ele venha daí.
Não durmo mais durante os jogos, mas continuo apreciando a bagunça ao redor.
Não sei se o hexa vem esse ano, ou algum, mas continuo na torcida.
Se os jogadores merecem ou não, se alguém merece, eu sei lá. O que é merecimento? Pouco importa.
O que eu posso fazer é assistir, e entender perfeitamente a sensação de estar lá. Entre correr como uma criança pelo campo, e as cobranças de pênaltis aos pés de uma goiabeira… Bom, é tudo a mesma coisa, não é? O arroubo é o mesmo, a paixão a mesma.
Não era minha intenção fazer uma ode a esse esporte, mas acho que eu fiz mesmo assim. O que eu posso fazer? Acho que fui tomado pelo arroubo outra vez.
Para alguém que não tem mais dificuldade com as palavras, continua sendo o suficiente.
Pelo menos a cada quatro anos.
Com amor,
Luc






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