Naquele sábado eu acordei com uma má vontade do cão. Eu já sabia que seria uma correria e, internamente, já estava brigando comigo mesma pra desistir de todos àqueles compromissos que eu mesma tinha aceitado. A minha maior preguiça era ir na tal trilha noturna que minha irmã de vida (Aribelle) tinha comprado pra mim semanas atrás. Eu já sabia que a data da trilha iria ser no mesmo final de semana que rolaria um evento de quadrinhos que eu participaria no domingo, mas, mesmo assim, aceitei. Não sei por quê.
Acordei às 6:30 da manhã (repito: DE UM SÁBADO!), pois ainda precisava arrumar minha mochila pra trilha, apesar de que o ônibus de turismo só sairia às 13:30. Acontece que eu, pra variar, marquei um encontro com minhas amigas e colegas de quadrinhos no Parque da Redenção às 9h, o que me impedia de arrumar as coisas pra trilha mais tarde e com mais calma. Por quê eu faço isso comigo mesma? Marco tudo pro mesmo dia e depois sou obrigada a correr que nem uma louca pra dar conta de tudo. Enfim, arrumei a tal mochila junto com roupas extras e lanches, quase esqueci de colocar a minha identidade, documento que, se não apresentasse pras guias, não seria permitido o meu embarque.
Uma das coisas que mais me causa tensão antes de qualquer viagem é a possibilidade de esquecer de embalar alguma coisa que vai me fazer falta. Não importa se é uma viagem de um mês, ou uma simples trilha que nem vai durar um dia inteiro. Estar longe da minha casa e das coisas que me trazem conforto no dia a dia me traz muita preocupação desproporcional à situação. Ser responsável por si mesma tem essa desvantagem, se eu esqueço algo, eu mesma pago pelo erro, um carma quase que imediato. Me “auto ferrar” está longe de ser uma das minhas atividades favoritas, eu sou cruel demais com quem me ferra, então não quero ser a pessoa que vai ter de sofrer as consequências.
Mochila pronta, tomei meu café da manhã, me arrumei e fui até o ponto combinado com minhas amigas/colegas. Marcamos de nos encontrar em uma loja de material de arte que existe perto do parque. Eu não consigo explicar a sensação de plenitude que eu sinto quando faço um rolê pela manhã. Estar lá acompanhada das manas, rondando as prateleiras da loja, trocando figurinhas a respeito de materiais de arte e comprando mais um sketchbook pra coleção, me faz sentir um quentinho inexplicável que os outros turnos do dia não me proporcionam. As manhãs são a minha parte favorita do dia, elas são pacíficas, elas são um início, uma nova chance, e socializar a essa hora quando as pessoas preferem dormir até mais tarde nos finais de semana, me faz sentir que a vida é boa e que estou aproveitando ela bem.
Após nossas comprinhas, começamos a passear pela feira, parando de banca em banca, porém já estava na hora de eu me despedir delas para voltar pra casa e me encaminhar para o ponto de encontro do ônibus de turismo. Eu ainda estava estressada com a correria e com preguiça de fazer a tal trilha, mas eu sabia que no momento em que entrasse no ônibus isso passaria, já que a maior parte da minha tensão desproporcional (depois da tensão de fazer a mochila) vinha do medo de me atrasar, e não me atrasei, cheguei até antes do ônibus de turismo. Agora sim, eu poderia voltar a aproveitar o dia sem preocupações.
Pensando bem, percebo agora que os momentos nos quais eu sinto mais incomodada a me movimentar são os momentos que passo sozinha. Antes de encontrar minhas amigas na Redenção, me estressei de ter de arrumar a mochila, e depois que me despedi delas, estressei porque não queria me atrasar para embarcar no ônibus de turismo. Parece que o nível de esforço precisa se quadruplicar quando sou obrigada a me movimentar sozinha pelo mundo.
(foto por uma das minhas colegas de trilha - Nara)
Será que sempre fui assim desde que me separei do meu primeiro namorado em 2010? Antes de namorar eu não fazia nada sozinha. Ou saía com meus amigos, ou família, ou então não colocava os pés pra fora de casa. Meus pais não passeavam muito com a gente (eu e meu irmão mais novo), então tivemos uma infância muito isolada e com poucas experiências de mundo. Também, isso deve ter a ver com o fato de que comecei a namorar muito nova, com uns 18 anos, bem quando estamos começando a experimentar a vida adulta. Antes disso eu ainda era protegida pelos meus pais e só ia do colégio pra casa, de casa pro colégio. Também encontrava meus amigos, mas era sempre na casa de um deles, nunca gostei muito de ir para festas. Então quando comecei a namorar tão nova, eu também estava fazendo meu ingresso na vida adulta. E assim foram-se 10 anos, crescendo ao lado de alguém que também estava crescendo junto comigo. Me acostumei a não ter agência. Eu ainda era a mais tímida do casal, então era confortável pra mim deixar ele fazer algumas coisas. Ele que pedia a bebida por mim, ele que me instigava a ir comer em restaurantes diferentes. Ele que estava sempre ansioso por sair de casa e fazer algo na rua. Ele que era minha companhia e meu movimento. E eu o acompanhava de bom grado, pois sempre me divertia.
Foi assim que eu percebi o quanto o mundo lá fora da minha caverna pode ser legal. Então quando nos separamos eu não queria que isso acabasse. E eu sabia que eu teria de ser a minha própria companhia. Mas também, será que eu não poderia ser uma companhia menos rabugenta, preguiçosa e reclamona? Enfim.
Já no ônibus, encontrei Aribelle e a viagem seguiu sem qualquer problema. Fizemos as paradas programadas com um ônibus cheio de mulheres (deveria ter somente uns quatro homens, dois deles com suas parceiras, e os outros dois mais velhos. Eu e minha esperança ingênua de encontrar um candidato nesses passeios), atravessamos campos de plantação de arroz e chegamos até uma reserva ambiental em Tapes, onde iríamos caminhar até a beira de um pequeno trecho da Lagoa dos Patos e continuar até um ponto onde ficaríamos esperando as estrelas aparecerem no céu.
Esqueci de comentar, a trilha chamava-se Via Láctea, e o propósito era ver os planetas e as constelações na beira da lagoa, o que não estava parecendo muito promissor, pois a previsão era de céu encoberto, e durante a viagem inteira as nuvens iam e voltavam. Não só isso, mas o frio recém tinha começado a dar suas caras aqui no sul, e eu que não sou muito fã, estava preocupada com o quão frio e ventoso estaria durante a trilha pela beira do lago. Porém todas essas preocupações (que pra mim não eram nem de perto tão grandes quanto as preocupações do início da minha manhã) se revelaram inúteis também. O frio não estava nada intenso, tanto que bastou que eu usasse uma touca, não havia vento, somente uma brisa e as nuvens começaram a se dispersar.
(foto por Ariane Rauber)
No momento em que chegamos ao ponto de observação, eu estendi minha canga na areia, sentei, coloquei meu casacão de frio e peguei o sanduíche que eu havia preparado. Naquele momento o passeio já tinha valido a pena mesmo sem as estrelas. Eu estava num lugar diferente, cercada por outras pessoas, confortável e comendo. Não tinha como melhorar, só que melhorou. Todos estavam tensos esperando as estrelas. De repente um ponto brilhante começa a brilhar no céu entre as nuvens, todos se voltam para àquele lado e começam as pesquisas sobre qual planeta seria aquele, e aquele outro, mais alguns começam a brilhar no céu, e aí, quando viramos para o outro lado: ESTRELAS. Muitas e muitas estrelas, que magicamente começavam a ficar mais nítidas. Então percebemos um rastro interligando elas, era a Via Láctea. Claro que eu já havia estado em algum lugar remoto onde pudesse observar o céu, mas eu nunca havia realmente dissecado com os olhos o suficiente pra perceber que podemos enxergar a olho nu, tão claramente, a nossa pequeneza. Me deitei e fiquei horas olhando para aquele céu que parecia de mentira.
(foto pelo colega de trilha Wagner)
Será que se eu ainda estivesse naquele relacionamento, ou em qualquer outro, eu repararia no céu? Eu teria ido na feira com minhas amigas de manhã? Eu teria acompanhado a Aribelle numa trilha? Eu espero que sim, eu não desejaria pra Cris do Universo alternativo uma vida onde essas experiências não existissem. E viver dessa forma dá trabalho. É cansativo. E ainda bem que a vida não é só ver televisão e ficar encerrada em casa. Então respondendo a minha própria pergunta. Por que eu faço isso comigo mesma? Porque sempre vale a pena.
(foto pelo colega de trilha Hairton Cezar)





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