Seis bombardeios em um ano. E o hospital nunca fechou as portas.
Foi isso que aconteceu com o St. Thomas Hospital, o cenário onde se passa a maior parte de O Livro de Horas de Evelyn Stanton. Entre 1940 e 1941, não foi um ataque isolado — foi uma campanha inteira. E, mesmo assim, o hospital nunca fechou.
Salvar vidas no escuro
Com o risco constante de bombardeio, salas cirúrgicas, enfermarias e centros de tratamento inteiros foram transferidos para debaixo do nível da rua. De um dia para o outro, salvar vidas passou a acontecer no escuro, no subsolo, longe de qualquer teto de vidro que pudesse virar estilhaço a qualquer momento.
E quando a água quente parava de funcionar — o que acontecia com frequência —, as enfermeiras esterilizavam bisturis e agulhas em fogareiros comuns de cozinha. É um detalhe pequeno, mas que muda completamente a imagem que a gente carrega da palavra "hospital".
O pesadelo que ninguém esperava
Mas o pior ainda estava por vir: o depósito de instrumentos cirúrgicos também foi atingido pelo fogo. Fórceps inteiros saíram do incêndio deformados, tortos, inutilizáveis.
Para um médico da época, isso era o verdadeiro pesadelo prático. Sem fórceps, diante de um parto obstruído, você estava literalmente cego — sem o único instrumento capaz de resolver, em minutos, o que o próprio corpo não estava conseguindo resolver sozinho.
No meu romance, é exatamente esse desespero — o instrumento que devia salvar, agora inútil nas mãos de quem mais precisa dele — que empurra Evelyn Stanton a fazer algo que ninguém, nem ela mesma, esperava.
Um número fácil de esquecer
Seis bombardeios é um número fácil de ler e fácil de esquecer — mais um dado histórico entre tantos sobre a Segunda Guerra. Mas quando é a sua enfermaria, o seu porão, a sua gente lá dentro, o número vira rosto. E alguns rostos que a gente já ama, ao longo da história, não saem vivos dessa fase.
Foi assim que decidi escrever essa parte do livro: não como pano de fundo histórico, mas como algo sentido no corpo — o medo, a improvisação, a teimosia de continuar cuidando mesmo quando as próprias ferramentas de cuidar já não funcionam mais.
Essa foi a segunda parte da série sobre os bastidores reais de guerra por trás do livro.
Na próxima, conto sobre um lugar que mudou de nome oficialmente — mas nunca deixou de aterrorizar quem vivia perto dele. E fica de olho: esse fórceps deformado ainda vai voltar, numa série futura sobre a história real da obstetrícia que também atravessa o romance.
Apoie a campanha e ajude O Livro de Horas de Evelyn Stanton a sair do papel, com ilustrações originais, para chegar até você.
Lançamento em breve!
Com carinho, Ayla








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