Há recomeços que não nascem da coragem. Nascem da falta de alternativas.
Tenho pensado sobre a maneira como costumamos romantizar os recomeços.
Falamos deles como se fossem decisões tomadas com entusiasmo, esperança e a certeza de que dias melhores virão.
Mas nem sempre é assim.
Algumas vezes, recomeçamos porque aquilo que construímos deixou de existir.
Porque nossos planos fracassaram.
Porque a vida nos colocou diante de circunstâncias para as quais não estávamos preparados.
E há algo profundamente humano nesse processo que raramente aparece nos discursos sobre superação.
O medo.
A vergonha de não ter conseguido.
O cansaço de precisar reconstruir aquilo que levamos anos para conquistar.
A sensação desconfortável de olhar para trás e perceber que algumas escolhas poderiam ter sido diferentes.
Com o tempo, tenho compreendido que amadurecer não significa deixar de cometer erros.
Significa aprender a conviver com as consequências deles sem permitir que definam tudo aquilo que ainda podemos ser.
Não acredito que toda perda esconda uma oportunidade.
Algumas perdas são apenas perdas.
E precisamos ter o direito de reconhecê-las, de lamentá-las e de sentir o peso que carregam.
Mas também acredito que existe uma diferença entre aceitar aquilo que aconteceu e entregar a ele o restante da nossa história.
O passado pode explicar nossas cicatrizes. Mas não precisa determinar todos os nossos próximos passos.
Talvez recomeçar não seja voltar a acreditar que tudo dará certo.
Talvez seja simplesmente encontrar disposição para tentar novamente, mesmo sabendo que nem tudo está sob nosso controle.
E hoje, olhando para a vida com menos certezas e mais consciência das minhas próprias limitações, percebo algo que antes não compreendia:
Recomeçar não é apagar a história que vivemos. É encontrar coragem para continuar escrevendo, mesmo depois dos capítulos que gostaríamos de esquecer.
— Duarte Santel
Escrevendo sobre o homem, a fé e o nosso tempo.
@duartesantel







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