Ben Robbins escreveu uma sequência de textos poderosíssima sobre sua campanha West Marches. Quando comecei a procurar soluções para campanhas mais abertas, percebi que muitos autores voltavam aos textos dele como referência. Acabei adorando tudo que ele fez e ficando tentado a jogar daquela forma.
Uma das ideias que mais me chamou a atenção foi a relação dos jogadores com a campanha. Não havia um grupo fixo esperando que o Mestre apresentasse a próxima aventura. Os próprios jogadores organizavam expedições, escolhiam onde queriam ir e compartilhavam entre si aquilo que haviam descoberto.
Depois, seguindo essa trilha de referências, outra ideia começou a se encaixar muito bem: o “Don’t Prep Plots”, do The Alexandrian. A proposta é preparar lugares, situações, pessoas, pistas e forças em movimento em vez de uma sequência de acontecimentos que os jogadores deveriam seguir.
As duas coisas não são iguais, mas apontam para uma experiência que me fomentou demais o desenvolvimento de Tatangá: os jogadores precisam poder tomar uma decisão e fazer o mundo responder a ela.
Um rumor pode virar uma expedição ou ser ignorado. O grupo pode voltar a um lugar conhecido, atravessar o mapa em outra direção, tentar encontrar alguém que desapareceu ou seguir uma trilha apenas porque ninguém sabe onde ela termina.
Só que essa liberdade cobra uma conta.
Se os jogadores realmente podem escolher caminhos diferentes, o Mestre precisa lidar com duas dificuldades ao mesmo tempo. Antes da sessão, existe o risco de preparar uma quantidade enorme de conteúdo que talvez nunca seja usada. Depois de algumas sessões, aparece outro problema: manter na cabeça tudo aquilo que o mundo já acumulou.
Que caminho foi explorado? Que lugar já recebeu um nome? Qual rumor continua aberto? O que mudou depois da última expedição? Onde estava aquela criatura? O que um grupo descobriu que pode ser importante para outro?
Foi tentando lidar com esse peso que começou a nascer o que hoje é o Vereda RPG Manager.
A ideia foi colocar parte desse trabalho em uma segunda tela do Mestre. O Vereda pode gerar conteúdo quando ele se torna necessário, organizar o mapa, guardar pontos de interesse, acompanhar rumores e manter estados que precisam sobreviver de uma sessão para outra.
A ferramenta começou, portanto, com uma preocupação bastante prática: como permitir uma campanha aberta sem exigir que o Mestre prepare todas as possibilidades e se lembre sozinho de tudo o que aconteceu?
E trabalhar nesse problema acabou levando a outra pergunta.
Se parte desse peso operacional puder ser absorvida por procedimentos e pela ferramenta, até onde podemos levar a liberdade dos jogadores?
É aí que Tatangá entra na história.
Em Tatangá, essa liberdade deixa de ser apenas uma possibilidade e passa a organizar o próprio jogo. A campanha acontece por expedições. Os jogadores escolhem seus objetivos, formam suas comitivas e decidem para onde querem ir. O mundo vai sendo revelado conforme é explorado, e aquilo que uma expedição encontra pode alterar as possibilidades das seguintes.
Rumores podem virar destinos. Um caminho descoberto pode facilitar uma viagem futura. Um lugar encontrado pode receber um nome e entrar no mapa compartilhado. Uma criatura que escapou continua sendo problema. Uma informação trazida de volta pode ser mais valiosa para a campanha do que o tesouro encontrado junto dela.
A proceduralidade ajuda a sustentar tudo isso porque permite responder uma pergunta que aparece constantemente:
“E se eles forem para lá?”
O Mestre não precisa conhecer antecipadamente cada resposta possível. O mundo pode responder quando os jogadores fazem a pergunta.
Para quem já mestrou uma campanha mais aberta: o que começou a pesar primeiro — preparar possibilidades, improvisar durante a sessão ou lembrar de tudo que o mundo já acumulou?
Estamos compartilhando por aqui o desenvolvimento de Tatangá e do Vereda RPG Manager, inclusive as decisões, testes e problemas que vão moldando os dois projetos. Se esse tipo de discussão interessa a você, acompanhe o RPG à la carte para seguir esse processo com a gente.





Seja o primeiro a comentar
Faça o login para comentar.
Entrar