“Bom dia, Laura. Lembra de mim?”
Laura ainda estava restabelecendo os sentidos enquanto abria os olhos com certa dificuldade. Mesmo assim, a voz que ecoava sobre ela era consideravelmente reconhecível.
Ela estava suada, sua regada, levemente úmida, estava colada ao seu corpo, deixando o seu peito abafado. Seu ombro e braço direito também doíam, como se ela estivesse dormindo em má posição por bastante tempo. Além disso, sua respiração doía, e ela sentia uma queimação estranha em seus pulmões conforme inalava o ar, como se tivesse acabado de sair de um ambiente fechado e com pouco ar circulando.
Enquanto tentava se recompor, ela olhava ao redor e só via sombras que pareciam girar sem formar uma imagem coerente. Tudo ainda estava muito indecifrável e confuso.
Suas mãos tentaram tatear alguma coisa, mas ela sentiu que os seus movimentos estavam limitados, seus pulsos doíam e quanto ela tentou, mais uma vez, mexer os seus braços, percebeu que estava com os pulsos presos em cordas ásperas, e doía ao mexer, pois estavam bem presas e raspavam em sua pele sensível.
Laura começou a balançar a cabeça e contorcer o corpo enquanto percebia, aos poucos, que estava numa situação horrível. Ela tentou puxar ainda mais os braços, tentou se mover da cama puxando os pés e descobriu que eles também estavam presos. Ainda com a visão turva, ela tentou inclinar a cabeça para ver os pés e, ainda sentindo dor e tontura, viu que os seus tornozelos também estavam presos por cordas.
Desesperada, ela tentou olhar para o próprio corpo pois, automáticamente, imaginou o pior. Olhou em direção ao seu busto e viu que a sua regata preta de alças finas ainda estava intacta, apesar de parecer um pouco suja. Esticou mais a cabeça e viu, com dificuldade, que ainda estava com a calça azul clara de cintura alta. Só olhou novamente para os pés que estavam expostos e gelados. Percebeu então que estava sem a meia e sem o tênis que tinha usado para sair hoje de manhã.
— Está com frio nos pés? — Perguntou a voz novamente. O som dela estava mais audível, agora. Era uma voz jovem, parcialmente grossa, e pronunciada num tom sério, quase metódico.
Era estranhamente familiar.
Ainda grogue, Laura buscou se orientar melhor de onde estava até que a realidade da situação começou a despencar nela como uma enchente violenta. Ainda com a visão esmaecida, seus olhos percorreram todo o lugar onde estava, absorvendo o máximo de informações que conseguia em milésimos de segundos. Em sua rápida observação, ela percebeu que estava em um quarto de paredes úmidas, iluminado apenas pela luz amarelada de uma lâmpada nua, dando ao quarto um aspecto de abafado e sombrio. Também viu que tudo parecia improvisado: a cama simples onde estava deitada, a mesa com cadeira plástica ao seu lado, as prateleiras com mantimentos, um cortina desgastada que parecia cobrir o que parecia ser o banheiro à sua frente - pois dava pra ver, por trás da pequena abertura da cortina, que havia uma privada e um choveiro simples - , e ao seu lado direito, a alguns metros, estava um ventilador velho, girando e zumbindo baixo.
E então ela viu um homem, em pé, no centro do quarto, ao seu lado, usando roupas pretas e uma máscara preta com apenas uma abertura na altura dos olhos. E ele estava ali, parado, olhando em sua direção.
— SOCORRO! — Gritou Laura enquanto se desesperava, chorava e mexia o corpo o máximo que podia. — SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDA! ALGUÉM ME AJUDA POR FAVOR! SOCORRO!!!
O homem se aproximou dela com um olhar fechado e embrutecido, pousou com força a sua mão esquerda sobre os seus lábios e abafou completamente os seus prantos. Laura tentou resistir balançando a cabeça e o corpo de um lado para o outro, mas estava fraca, e a mão do homem, que apertava a sua boca, era firme e forte, a ponto de praticamente sufocar a sua respiração ofegante. Antes que se mexesse novamente, o homem aproximou o seu rosto mascarado do rosto dela e disse:
— Calma, Laura. — Disse ele com a voz firme. — Não vou te machucar.
O homem, então, com a sua mão direita livre, apertou a máscara na altura do queixo e a puxou para cima, revelando o seu rosto jovem incompatível com a sua voz madura e grossa. Ele tinha a cabeça raspada, olhar sisudo, rosto com pele grossa e texturizada — com marcas de espinhas antigas e novas aparentes. Sua barba também estava por fazer, e sua pele, suada, brilhava parcialmente contra a luz amarelada que tocava o lado direito do seu rosto.
Laura reconhecia aquele rosto. A ponto de ficar em choque e parar de resistir. Percebendo a falta de resistência dela, Caio foi tirando a mão do rosto dela aos poucos, deixando sua boca e nariz livres, quando ele recolheu completamente a mão, Laura, ainda recuperando a respiração, disse ofegante:
— Caio?

