Durante muitos anos trabalhando com educação, ouvi uma frase que parecia fazer parte do cotidiano escolar: “ele não tem capacidade para acompanhar a turma.”
Como educador, professor, formador de professores, consultor e gestor de soluções educacionais, passei boa parte da minha trajetória buscando compreender como podemos criar experiências de aprendizagem mais significativas, inclusivas e conectadas às necessidades reais dos estudantes. Trabalhei com educação digital, competências socioemocionais, inovação pedagógica e formação de educadores. Mas foi dentro da minha própria casa que muitas dessas perguntas ganharam um novo significado.
Sou pai de duas meninas, Ana Júlia e Ana Sofia. Observando de perto suas diferentes formas de aprender, se expressar, perceber o mundo e enfrentar desafios, comecei a compreender algo que nenhuma teoria, por si só, havia conseguido me mostrar com tanta força: a diferença entre ter capacidade e ter condições para demonstrá-la.
O diagnóstico de autismo de Ana Júlia, aos dezesseis anos, foi um momento de ruptura e também de reconstrução. Olhar para sua trajetória escolar depois daquele diagnóstico significou revisitar situações que antes poderiam ser interpretadas como desinteresse, dificuldade ou falta de capacidade. Muitas delas passaram a revelar outra coisa: barreiras, sobrecarga, inadequações do ambiente e estratégias que simplesmente não consideravam a forma como aquela mente funcionava. Essa experiência está na origem da pergunta que atravessa todo este livro: quantas vezes confundimos uma barreira de acesso com falta de capacidade?
Foi dessa inquietação que nasceu Não É Falta de Capacidade.
O projeto começou como uma reflexão pessoal e profissional e foi crescendo até se transformar em um livro. Nele, reúno conhecimentos e experiências sobre neurodiversidade, educação socioemocional, funções executivas, tecnologia assistiva, aprendizagem criativa, pensamento computacional, inclusão e autonomia.
Mas não queria escrever apenas mais um livro que falasse sobre inclusão. Queria construir uma obra que pudesse chegar à segunda-feira de uma escola — à sala de aula real, ao professor diante de um estudante que não consegue iniciar uma atividade, à família que não sabe mais como ajudar, ao gestor que busca construir uma cultura verdadeiramente inclusiva.
Por isso, o livro também apresenta caminhos práticos e o Método PONTE, uma proposta que convida o educador a perceber, observar e nomear as barreiras antes de simplesmente julgar o comportamento. A ideia é transformar o olhar e, a partir dele, testar novas possibilidades de apoio.
Por que o financiamento coletivo?
O manuscrito está pronto. Agora começa uma nova etapa: transformar este projeto em um livro que possa circular e alcançar mais pessoas.
O financiamento coletivo vai ajudar a viabilizar a produção editorial, a impressão dos exemplares, a preparação gráfica e a divulgação da obra, permitindo que ela chegue às mãos de educadores, gestores, famílias e profissionais que estão construindo diariamente uma educação mais inclusiva.
Mas existe algo ainda maior por trás desta campanha.
Eu quero que este livro seja construído junto com as pessoas que acreditam que toda diferença merece ser compreendida antes de ser julgada.
Cada apoio ajuda a colocar essa conversa em circulação.
Porque talvez a pergunta nunca devesse ter sido:
“Por que esse aluno não consegue?”
Talvez devêssemos ter perguntado antes:
“Que barreira está impedindo que ele mostre o que é capaz de fazer?”
Este livro nasceu dessa pergunta.
Agora quero levá-la mais longe.
