Por Lila Almendra, Talita do Lago e Daniel Tygel - 15/07/2019
Foto tirada ao final da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Caldas de 5 de junho de 2019
No dia 5 de junho deste ano, conseguimos coletivamente dar uma virada
central na história de Caldas, ao pacificar e superar o maior conflito
socioambiental da região através da revogação das alterações no artigo
51 da Lei da APA e da Lei Orgânica Municipal.
Superado este impasse, a pergunta imediata que fica é: E agora?
Esta é a hora de construir uma agenda de desenvolvimento sustentável
para a nossa região. É a hora de Caldas se reconciliar com o seu futuro e
suas vocações tradicionais, sua rica cultura, que têm sido deixados de
lado há mais de 30 anos, em grande parte em função do avanço parasitário
da mineração no município.
E o que é uma vocação senão o próprio
coração da cidade? Não se trata, portanto, de atividade predatória
oportunista ou imposta às cidadãs e cidadãos, mas daquilo que integra o
modo de vida do caldense há mais de dois séculos: um modo de vida
estreitamente ligado à roça e à natureza.
Caldas precisa de um projeto de futuro. Um futuro alicerçado na sua história, na preservação
ambiental e cultural, e em suas grandes potencialidades.
Apontamos, aqui, três pilares que podem embasar este projeto de futuro:
1. Turismo de base comunitária
Trata-se do turismo que acontece a partir da participação das
comunidades rurais e urbanas e promove a apreciação da natureza e da
cultura sem degradação, de modo a fomentar o desenvolvimento, a
distribuição de renda e as oportunidades de trabalho em mais de 40
setores econômicos da região – conforme estudos em outros municípios
brasileiros que apostaram nesta via.
Para apoiar a superação
deste desafio, o Núcleo de Turismo Comunitário da Aliança em Prol da APA
da Pedra Branca, em parceria com a Prefeitura Municipal de Caldas,
lançou recentemente a iniciativa Visite Caldas, que visa a incentivar e
articular as ações de turismo de base comunitária na região.
A
Aliança também submeteu à Câmara Municipal um Projeto de Lei que cria o
Parque Natural Municipal André Regnell, para organizar o turismo ao pico
da Pedra Branca com base na comunidade local e no respeito a este
patrimônio mundial.
2. Produção saudável e sustentável de alimentos pela agricultura familiar
Trata-se de produção agrícola através da união de técnicas tradicionais
e de novas tecnologias, práticas de agroecologia, agricultura orgânica,
permacultura, agrofloresta e biodinâmica – união esta que permite a
produção e o consumo de alimentos sem veneno nem transgênicos.
Segundo estudos atuais, a produção saudável de alimentos é um dos
setores econômicos que mais cresce no mundo, pela necessidade de
melhorar a saúde humana e o cuidado com o meio ambiente. Esta é a
tendência da agricultura de hoje e que garante um futuro possível da
humanidade: uma atividade produtiva que gere alimentos e também cuide da
terra, dos animais e dos seres humanos.
O Núcleo de Agroecologia
Araucária Viva, da Aliança em Prol da APA da Pedra Branca, tem atuado
nesta área, e hoje integra, como um dos núcleos, a Orgânicos Sul de
Minas. O Núcleo promove encontros, mutirões e seminários a fim de
estimular a transição agroecológica localmente, além de organizar um
grupo de consumo de produtos orgânicos agroecológicos, que cresce a cada
dia.
O Núcleo Araucária viva também apresentará à prefeitura de
Caldas uma proposta de ação de conscientização sobre os impactos do uso
de agrotóxicos para quem aplica e para quem consome os produtos,
buscando alcançar metas de redução do uso de agrotóxicos na nossa região
através da discussão e criação de uma Lei Municipal que crie um
Programa de redução do uso de agrotóxicos e estímulo à agricultura
orgânica agroecológica.
3.Cultura popular e tradições locais
Nossa região é rica em cultura: As serestas, a folia, as músicas de
viola entre outras expressões artísticas, que contam com expoentes
locais e nacionais na nossa região; A tradição do troca-dia, ou mutirão,
nas relações das comunidades rurais; O artesanato de palha de milho; A
produção artesanal de vinho folha de figo, a canjiquinha, os biscoitos e
demais delícias da culinária típica caldense; A tradição indígena que
traz a força da comunidade e da espiritualidade na reverência à mãe
terra.
A Casa da Cultura tem promovido diversas ações neste
sentido, e o Núcleo de Cultura Popular da Aliança em Prol da APA da
Pedra Branca tem fomentado oficinas, shows e espetáculos, dentre os
quais vale destacar o Festival Pedra Branca de Violas e Sonhos, na
Capela Santa Bárbara no Bairro da Pedra Branca, um verdadeiro sucesso
que terá sua segunda edição neste dia 7 de setembro de 2019, o dia
inteiro.
É possível - basta coragem, amor e união
As atividades e projetos acima citados nos três pilares – e
muitos outros – devem receber investimentos a fim de que se expandam em
todo o seu potencial e força, garantindo assim um desenvolvimento
sustentável, que ofereça qualidade de vida para quem aqui mora e encante
aqueles que nos visitem.
Basta querer. Basta acreditar. Basta
planejar, sonhar e colocar mãos à obra, com criatividade e
coletivamente. Precisamos apontar o futuro. Hoje, nossa região está
vazia de projetos de futuro, que são fundamentais para garantir saúde e
bem-estar à população, além da manutenção de uma sabedoria secular, que é
o que temos de mais valioso, um bem imaterial que só será preservado se
assim desejarmos.
Agora é a hora e a vez de Caldas. Não deixe
esta oportunidade passar: Participe desta construção de um futuro
brilhante. Precisamos de sua coragem, alegria e muito amor à vida, à
natureza e ao próximo.
"Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova." Mahatma Gandhi