"Há uma pressa estranha no Brasil. As notícias se atropelam, as palavras se inflamam, os acontecimentos mal encontram tempo para se tornar memória. Tudo parece exigir uma resposta imediata. E, enquanto discutimos o último escândalo, alguma coisa anterior vai ficando para trás.
Volto à imagem de Marina Abramović. Quatro dias lavando ossos.
Penso nas mães brasileiras que passaram a vida procurando os filhos desaparecidos durante a ditadura. Penso nos documentos reunidos, nas fotografias guardadas, nos nomes pronunciados durante décadas para que ninguém pudesse dizer que aquelas pessoas jamais existiram. Há algo profundamente perturbador em imaginar que uma sociedade possa conhecer sua história e, ainda assim, voltar a discutir se a violência que a constituiu foi necessária.
Marina esfrega os ossos.
Do lado de fora, continuamos discutindo o passado como se ele estivesse encerrado.
E os ossos permanecem."
Lírio Valente em Diário de Bordo sobre a Balkan Baroque, de Marina Abramović, e o frenesi do esquecimento político brasileiro
Em 1997, Marina Abramović sentou-se sobre uma montanha de ossos bovinos e começou a limpá-los.
Durante quatro dias, na Bienal de Veneza, esfregou os restos de animais que ainda conservavam fragmentos de carne e sangue. O cheiro da decomposição se espalhava pelo espaço. Marina cantava canções de sua infância, chorava, esfregava os ossos. Repetia o gesto até a exaustão.
Havia cerca de uma década que a Iugoslávia, país onde nasceu, começara a se desfazer. As guerras dos Bálcãs haviam deixado cidades destruídas, deslocamentos em massa, campos de detenção, estupros utilizados como instrumentos de terror e milhares de mortos.
A artista estava diante de uma história que conhecia intimamente, embora sua obra não pretendesse representar uma vítima ou um acontecimento específico.
Balkan Baroque foi concebida a partir dessa experiência de desintegração. Havia nela uma impossibilidade deliberada... por mais que Marina esfregasse aqueles ossos, jamais conseguiria limpá-los completamente.
O sangue continuaria pertencendo à história.
Quase trinta anos depois, volto a essa imagem pensando no Brasil.
Penso sobretudo na facilidade com que conseguimos transformar acontecimentos terríveis em assuntos encerrados. Basta que passem alguns anos, que mudem os governos, que apareçam outras urgências. Aos poucos, a memória começa a disputar espaço com versões mais convenientes dos fatos.
E me pergunto quanto dessa conveniência já aprendemos a aceitar?
O país que não terminou de enterrar seus mortos
A ditadura militar brasileira terminou formalmente em 1985. Quarenta e um anos depois, ainda existem famílias que desconhecem o destino dos restos mortais de seus parentes.
Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade apresentou seu relatório final, documentando graves violações de direitos humanos cometidas durante o regime. Foram identificados 434 mortos e desaparecidos políticos. A Comissão também examinou as estruturas de repressão, as práticas sistemáticas de tortura e a responsabilidade de agentes do Estado.
Esses números pertencem ao recorte investigado pela Comissão. Não representam a totalidade da violência praticada durante o período, especialmente quando pensamos nas populações indígenas, camponesas e em tantas outras vítimas que permaneceram à margem dos registros oficiais.
É preciso compreender o que significa um desaparecimento forçado.
Há uma pessoa que foi levada. Há testemunhas, documentos, versões contraditórias, arquivos incompletos. Há uma família que envelhece procurando uma resposta. A ausência do corpo impede até mesmo a experiência concreta de um sepultamento.
A morte aconteceu. O luto permanece suspenso.
Em Balkan Baroque, Marina toca aquilo que sobrou da morte. Elucidando, inclusive, o que podemos parear com o Brasil, muitas famílias sequer "tiveram esse direito" de limpar seus mortos.
A comparação me parece dolorosa justamente por isso.
A artista dispõe de ossos que pode lavar. As famílias dos desaparecidos políticos, muitas vezes, continuam procurando os seus.
E enquanto essa procura atravessa gerações, o país discute repetidamente a natureza da própria ditadura. Há quem relativize a tortura, quem reivindique o regime como um período de ordem e quem trate a violência estatal como um recurso aceitável diante de determinadas circunstâncias.
Não estamos diante de uma simples divergência sobre interpretações históricas. A documentação sobre torturas, execuções e desaparecimentos existe. Foi produzida por comissões, pesquisadores, familiares, jornalistas, sobreviventes e instituições públicas.
Podemos discutir as condições políticas que levaram ao golpe de 1964, suas consequências econômicas, seus apoios civis e suas contradições. Isso faz parte do trabalho histórico.
Mas a tortura não se torna menos real porque alguém encontra uma justificativa para ela.
E talvez uma das nossas dificuldades esteja justamente nesse ponto... Aprendemos a discutir as circunstâncias da violência com tanta desenvoltura que, em alguns momentos, quase deixamos de olhar para aqueles que a sofreram.
Quando a violência volta a encontrar uma voz.
Em abril de 2016, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro dedicou seu voto à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, identificado pela Comissão Nacional da Verdade como responsável por graves violações de direitos humanos.
O gesto aconteceu na Câmara dos Deputados, diante das câmeras, durante um dos acontecimentos políticos mais acompanhados daquele ano. (6:53 min)
Há uma brutalidade particular nessa cena.
Dilma havia sido presa e torturada durante a ditadura. A homenagem a Ustra, naquele contexto, colocava novamente a memória da repressão dentro do debate político brasileiro, agora como referência afirmativa de um parlamentar.
Não era uma descoberta sobre o passado. Era uma escolha sobre como apresentá-lo publicamente.
Durante o governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, declarações favoráveis ao regime militar e controvérsias envolvendo a memória do golpe de 1964 fizeram parte da vida institucional brasileira. A relação entre Forças Armadas, poder civil e democracia voltou a ocupar o centro das discussões.
O bolsonarismo também reuniu grupos distintos, com interesses e motivações diferentes. Reduzir todos os seus apoiadores a defensores da ditadura seria uma simplificação. Ainda assim, o elogio público ao regime militar e a seus agentes de repressão constituiu uma dimensão documentada da atuação política de Bolsonaro.
É essa dimensão que me interessa.
Como uma sociedade reage quando a memória de um torturador pode ser evocada como homenagem em uma instituição democrática?
O que acontece com o testemunho de quem sofreu a violência?
Penso em Marina esfregando os ossos.
Na repetição do movimento. No trabalho físico de permanecer diante daquilo que seria mais confortável afastar dos olhos.
E penso no esforço contrário: o de retirar da violência seu peso, convertendo-a em símbolo de autoridade, disciplina ou salvação nacional.
A memória é disputada também pela linguagem.
Uma prisão arbitrária pode ser chamada de medida necessária. Uma execução pode desaparecer sob a palavra confronto. A tortura pode ser apresentada como excesso individual, mesmo quando existem evidências de sua utilização sistemática.
As palavras não apagam os acontecimentos. Mas interferem profundamente na maneira como uma sociedade aprende a conviver com eles.
O frenesi e a conveniência do esquecimento
Estamos em outubro de 2026. O Brasil atravessa outra eleição presidencial, agora disputada, no segundo turno, entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. O primeiro turno terminou com 47,03% dos votos válidos para Flávio e 45,16% para Lula. A votação decisiva está marcada para 25 de outubro.
É difícil olhar para esse cenário sem pensar na velocidade com que a política brasileira tem consumido seus próprios acontecimentos.
As notícias se sucedem. Um discurso provoca outro. Uma denúncia é imediatamente acompanhada de uma resposta, de uma acusação, de uma montagem, de um vídeo, de milhares de comentários.
Há uma espécie de excitação permanente.
E tenho pensado no quanto esse frenesi interfere na nossa capacidade de lembrar.
A política passa a ser vivida como uma sucessão de confrontos. A necessidade de responder ao acontecimento mais recente ocupa tanto espaço que aquilo que aconteceu anteriormente vai perdendo nitidez.
A memória exige tempo. Exige disposição para consultar documentos, ouvir testemunhos, aceitar que determinados acontecimentos não cabem em explicações rápidas.
A propaganda política trabalha em outro ritmo.
Isso não significa que todo eleitor esteja desinformado ou que as pessoas escolham seus representantes exclusivamente por identificação emocional. Há preocupações legítimas com renda, segurança, trabalho, corrupção e serviços públicos. Há diferenças reais entre projetos de governo e razões diversas para apoiá-los.
Mas é possível reconhecer essas questões e, ainda assim, observar que parte do debate público brasileiro tem sido atravessada por uma disputa intensa sobre a legitimidade do passado.
O bolsonarismo ocupa um lugar importante nessa disputa.
E aqui precisamos distinguir duas coisas que frequentemente aparecem misturadas: a direita democrática e os movimentos políticos que defendem ou relativizam experiências autoritárias.
Uma pessoa pode defender posições conservadoras, liberais na economia, religiosas ou favoráveis a políticas de segurança mais rigorosas e, ao mesmo tempo, reconhecer integralmente a legitimidade das eleições, a alternância de poder, os direitos fundamentais e a condenação da tortura.
A existência de uma direita democrática é perfeitamente compatível com uma sociedade plural.
A questão se torna outra quando o autoritarismo passa a ser tratado como uma possibilidade aceitável de organização política.
É nessa passagem que a memória histórica ganha urgência.
Conhecer o passado não garante que deixaremos de repetir seus erros. A história oferece inúmeros exemplos do contrário.
Mas porque o esquecimento pode retirar da violência aquilo que a torna reconhecível.
Penso nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas em Brasília. As investigações e os processos judiciais posteriores abriram discussões sobre responsabilidade individual, organização dos atos, proporcionalidade das penas e possibilidades de anistia.
Essas discussões pertencem ao campo legítimo do direito e da política democrática. As responsabilidades precisam ser individualizadas, as provas examinadas e as garantias processuais respeitadas.
Ao mesmo tempo, o fato de que houve uma invasão violenta das instituições não depende da preferência política de quem o observa.
E me parece que uma das dificuldades do nosso tempo está em conseguir sustentar simultaneamente essas duas exigências: a precisão dos fatos e a complexidade de sua interpretação.
A memória não pode depender apenas daquilo que é conveniente ao grupo com o qual nos identificamos....
O corpo como arquivo
Volto a Marina.
![]()
A instalação de Balkan Baroque incluía projeções de seus pais e da própria artista. Seu pai aparecia associado à imagem de uma arma; sua mãe, a gestos com as mãos. Marina também narrava uma história sobre um caçador de ratos e dançava ao som de uma música tradicional.
A obra reunia lembranças familiares, narrativas culturais, imagens de autoridade e a experiência histórica da guerra.
Sua infância estava ali.
A artista nasceu em Belgrado, em 1946. Seus pais haviam participado da resistência partisan durante a Segunda Guerra Mundial e mantiveram vínculos com a estrutura política da Iugoslávia socialista.
A história política do país atravessava a intimidade daquela família. A disciplina, o nacionalismo, a autoridade e a memória da guerra faziam parte do ambiente em que Marina cresceu.
Talvez por isso seja tão importante observar que ela não escolheu simplesmente representar um campo de batalha.
Escolheu uma tarefa doméstica, quase banal: lavar.
Um gesto que conhecemos pelo corpo.
Lavar a roupa. Lavar a louça. Lavar as mãos. Retirar a sujeira, eliminar o cheiro, devolver alguma ordem à matéria.
Mas aqueles ossos não se deixavam limpar.
O sangue estava impregnado na própria história que a artista tentava elaborar.
E há algo nessa escolha que me faz pensar no trabalho da memória.
Recordar também exige repetição. Voltamos às mesmas fotografias, aos mesmos relatos, às mesmas perguntas. Às vezes descobrimos documentos novos. Às vezes encontramos apenas a confirmação de uma ausência.
A memória coletiva é construída por pessoas que insistem.
Penso nas mulheres que procuraram os desaparecidos políticos no Brasil. Nas mães que guardaram fotografias, nas esposas que exigiram informações, nas filhas que cresceram ouvindo nomes de pessoas que nunca conheceram.![]()
Penso nas Mães da Praça de Maio, na Argentina, e na maneira como transformaram a procura pelos filhos desaparecidos numa presença pública continuada.
Há uma aproximação possível entre essas mulheres e a imagem de Marina.
Todas nos colocam diante da duração.
Daquilo que precisa continuar sendo feito mesmo quando não existe garantia de resposta.
Mas há uma diferença que precisamos preservar. A performance de Marina é uma construção artística, delimitada no tempo, realizada num espaço institucional. A busca por um familiar desaparecido não termina quando o público vai embora.
Essa distância importa.
A arte pode tornar perceptível uma experiência histórica. Não substitui a experiência de quem a viveu.
Quem limpa os ossos?![]()
Há uma dimensão feminina em Balkan Baroque que merece atenção.
Uma mulher está sentada sobre os restos da guerra.
Ela executa um trabalho de limpeza, cuidado e repetição. Seu corpo suporta o cheiro, a sujeira, o calor e o desgaste.
Durante séculos, tarefas de manutenção da vida foram atribuídas às mulheres. Alimentar, lavar, cuidar dos doentes, preparar os mortos, organizar aquilo que permanece depois de uma perda.
Marina desloca esse trabalho para o centro de uma exposição internacional.
A limpeza deixa de ser invisível.
O público precisa olhar para ela.
Mas também me pergunto se há algo de cruel nessa imagem, sabe? Uma mulher tentando limpar os restos de uma violência que não produziu sozinha.
Quantas vezes o trabalho de reparar aquilo que foi destruído acaba sendo entregue justamente a quem também sofreu as consequências da destruição?
Não tenho certeza de que Marina pretendesse formular essa pergunta especificamente. É uma leitura que faço a partir da obra, da história das mulheres e das investigações que vêm atravessando o Jardim de Lírio. (Diário de Bordo, 2026)
E ela me interessa porque nos permite reconhecer outra dimensão da violência política... o trabalho cotidiano de continuar vivendo depois dela.
A guerra termina nos documentos oficiais em determinada data. Para quem perdeu alguém, suas consequências podem atravessar uma vida inteira.
O mesmo acontece com a violência de Estado.
Uma família pode receber uma indenização, um reconhecimento público, uma decisão judicial. São medidas importantes, frequentemente conquistadas depois de décadas de luta.
Mas nenhuma delas devolve o tempo. Nenhuma restitui integralmente a vida interrompida. A reparação tem limites que precisam ser reconhecidos justamente para que não seja confundida com esquecimento.
O que fazemos diante dos ossos?

Talvez seja por isso que a imagem de Balkan Baroque continue me perturbando.
Marina sabia que não conseguiria terminar seu trabalho. O gesto estava condenado ao fracasso desde o início.
Ainda assim, ela permaneceu.
Durante quatro dias, diante do público, continuou esfregando aqueles ossos.
Penso na política brasileira e no desejo recorrente de encerrar determinadas discussões.
Há quem considere a ditadura um assunto distante. Há quem veja a insistência em recordar suas vítimas como uma forma de manter conflitos antigos. Outros compreendem essa memória como uma exigência permanente de justiça e de proteção democrática.
Não acredito que uma sociedade precise permanecer aprisionada ao passado. Mas considero difícil imaginar uma elaboração histórica consistente quando seus acontecimentos mais graves continuam sendo negados ou justificados.
O passado não exige concordância absoluta sobre tudo. Exige que saibamos distinguir fatos documentados de versões que os apagam.
E a democracia, por sua própria natureza, precisa suportar o conflito entre interpretações.
O que ela não pode perder é a possibilidade de reconhecer a realidade compartilhada sobre a qual essas interpretações se constroem.
Há algo especialmente inquietante no presente... temos acesso a uma quantidade imensa de documentos, fotografias, depoimentos e pesquisas históricas. Ainda assim, a circulação acelerada de informações não garante uma compreensão mais profunda dos acontecimentos.
Talvez tenhamos confundido, em algum momento, acesso à informação com elaboração da memória.
Uma fotografia aparece na tela.
Nós olhamos.
Passamos para a próxima.
A imagem continua existindo em algum arquivo, mas isso não significa que tenhamos feito alguma coisa com aquilo que vimos.
Marina nos oferece uma experiência oposta.
O público entra num espaço onde o cheiro da decomposição não pode ser afastado com um movimento dos dedos.
O corpo precisa permanecer diante da matéria.
A obra exige tempo.
E talvez esse seja seu gesto mais radical quando a observo a partir de 2026: recusar a velocidade com que aprendemos a abandonar os acontecimentos.
Não sei se a arte consegue impedir o esquecimento.
Também não sei se toda memória produz justiça. Há lembranças manipuladas, monumentos erguidos para glorificar a violência, narrativas históricas utilizadas para alimentar novos conflitos.
A memória, sozinha, não nos torna melhores.
Mas sua disputa revela muito sobre aquilo que estamos dispostos a reconhecer.
Volto àquela mulher.
O vestido branco já não está limpo. Há ossos por toda parte. A carne se decompõe. O cheiro permanece. Marina continua trabalhando.
Penso nas famílias brasileiras que ainda procuram seus mortos.
Penso nos documentos que sobreviveram à tentativa de destruição.
Penso nas pessoas que se dedicaram a recolher testemunhos para que outros pudessem conhecer aquilo que aconteceu.
Penso também na responsabilidade de quem recebe essas histórias.
Em algum momento, os quatro dias de performance chegaram ao fim.
Marina deixou o espaço.
Os ossos permaneceram como parte da obra.
Aqui fora, a história continuou.
E talvez seja isso que mais me inquieta: a possibilidade de nos acostumarmos tão profundamente à violência que até seus vestígios deixem de nos perturbar.
Há quase trinta anos, uma mulher sentou-se sobre uma montanha de ossos e começou a lavá-los.
Ainda não terminamos de olhar.
Te encontro dia 25/10/2026.



É importante mencionar que esse rascunho surge durante o processo criativo da dramaturgia do "Papel de Arroz: antes do despertar a vigília" que escrevi e estreiei junto com a Lúcia Oliveira no MAC (Mostra de Artes Cênicas de Mogi das Cruzes), em 22/08/2026.

Por enquanto, chego a esta imagem.







