Conforme o padrão, dormi coisa de poucos segundos na madrugada do último sábado pra domingo. Às 6, ainda com o roupão xadrez que surrupiei da minha mãe, vesti meu filho com uma calça e um suéter vermelho e desci pra fazer o nosso café.
Tudo seguia o script. Como na maior parte dos outubros catarinenses desde que me lembro de prestar atenção nos outubros catarinenses, chovia uma chuva que não encharca, mas vem acrescida de vento. É o suficiente pra molhar cada centímetro de pele do corpo quando estamos na rua, deixar o piso úmido a ponto de escorregar e os cachorros cheirando a algo próximo de brócolis podre.
Enquanto grelhava uma banana no óleo de coco e mandava pra meia dúzia de contatos uma figurinha com o Lula dando bom dia, liguei o rádio na CBN. Desisti logo depois, já imaginando que a noite seria marcada pelo bombardeio de notícias. Desisti ainda de passar um café por andar com o estômago sensível. Fui de chimarrão, misturando o mate com erva doce.
Uma amiga ligou por chamada de vídeo pra confirmar o nosso alinhamento pra deputado federal e pra desabafar que a mãe, feminista e do samba, devia ir de PL pela primeira vez. Alguma fake news relacionada a impostos mudou a cabeça dela.
No início de setembro, comecei a planejar a vestimenta para a ocasião democrática. Em 2022, ganhei uma camiseta escrito “o voto é secreto”, mas ficou tão grande que passei pra frente. Procurei dezenas de estampas na Shopee e, sem ânimo pra nenhum modelo, coloquei vários no carrinho pra decidir com calma mais tarde.
Detesto todos os bordões esquerdistas. Não que eu fizesse muito melhor, mas “Fora Temer”, “Sem anistia”, “Não vai ter Copa” e “Ele não” ressaltam justamente o que a gente não quer. Não faz sentido estar sempre em negativa, como Carol Pires desenhou neste texto aqui.
“Tudo é político” já deu, não comunica nada. Inclusive, beira o cafona. “Tire o seu ódio do caminho que eu quero passar com o meu amor” está 200% equivocado. Não vou votar em cinco homens brancos esbanjando benquerença. É na força do ódio mesmo. Também não sei o que se passa na cabeça de alguém que cria uma camiseta com a raiz quadrada de 169. Nem os estudantes de Ensino Médio vão entender essa bosta.
Gostei do lema “tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais” e do “O Brasil é dos brasileiros”. O problema era a péssima qualidade da impressão, feito que se repetiu nas camisetas vermelhas com estampas da Mafalda. Uma pena. O momento é ideal pra evocar nossos hermanos.
