[esta edição está atrasada pois tentei conciliar trabalho e vida com um grande evento esportivo e, como era de se esperar, falhei miseravelmente nas três coisas.]
2 de junho, terça. A Copa começa na semana que vem e continuo sem repertório sobre a seleção brasileira. Quer dizer, no quesito futebol. Das fofocas conheço o Vinícius Júnior, provido de um enorme bom gosto para namoradas; o Paquetá, pela denúncia de tomar cartão pra beneficiar apostadores da sua família; o Endrick por se casar ainda bebê. O Casemiro não me é estranho. Desconfio que já esteve na última Copa, o que não significa que eu tenha aprendido a posição em que joga, mesma coisa um outro lá que esqueci o nome. Tem até um ruivo agora nesse time. Só assisti a uns pedaços do amistoso contra o Egito e serviu pra dar sono.
8 de junho, terça. Há mais bandeiras do Brasil no meu bairro em época de eleição.
11 de junho, quinta. Abertura. Já desenvolvi um trauma com a Cazé TV na cobertura das Olimpíadas de Paris. Nada contra gracinhas e gritos. Um erro ou outro também dá pra perdoar. Mas não tem nada mais insuportável do que velho fazendo de conta que é jovem e descolado. A Cazé é o tio Sukita da cobertura esportiva. Concordo que a Globo merece o fim do monopólio. O problema é que comprar os direitos das coisas e tentar democratizar o acesso não é sinônimo de prestar qualquer serviço. Nas Olimpíadas os caras já ficavam comendo Big Mac ao vivo sem comunicar que era publicidade.
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13 de junho, sábado. O povo chegou em casa já na hora do hino nacional. Ninguém muito confiante. A Cristiane como comentarista foi um grande acerto da Globo, hein? O melhor da noite foi a sopa marroquina high carb de um certo chef badalado.
14 de junho, domingo. Tinha uma festa junina pra ir, mas não dá porque tem Brasil x Argentina no vôlei, além de Suécia e Tunísia no futebol. Graças a Deus existe o esporte e vamos passar o dia inteiro no sofá dando gritos com o juiz em diferentes modalidades.
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15 de junho, segunda. A maior Copa de todos os tempos se tornou o chamariz pra humilhação por atenção nas redes sociais. Perfis mais politizados cancelam jogadores. Políticos progressistas aparecem apenas com a edição vermelha da camisa da seleção. Jornalistas trazem curiosidades sobre países estreantes. Influenciadores de ciência desmistificam hábitos questionáveis dos atletas. Cozinheiros replicam pratos de Curaçao. A galera do clima aproveita o gancho dos atrasos dos jogos causados pelos alertas de tempestades. A turma da moda debate as chuteiras rosas. Seguidores do Café com Deus pai exploram lições de resiliência de algum jogador trilhardário. Coachs de saúde sem formação acadêmica distorcem informações sobre a preparação e o desempenho dos jogadores. Tamanha obviedade me dá uma preguiça enorme. Pelo menos os memes e os vídeos das gays comentando a aparência dos jogadores garantem o entretenimento necessário.
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17 de junho, quarta. Impressionante como os uniformes dessa Copa descaracterizaram completamente os países. Desconfio que os holandeses escolheram esse laranja sabor desinfetante pra não serem confundidos com a Costa do Marfim. Gana é quem entregou mais estilo e personalidade. Uruguai, como sempre, veio na pegada agroneja, de camisa bem justinha. No entanto, o troféu de uniforme raiz sempre será da Croácia. A tela da TV ou do celular pode travar, a imagem pode ficar pixelada, que mesmo assim o mundo inteiro consegue reconhecer aquela toalha de piquenique.
19 de junho, sexta. O fato de Vini Júnior comer fatias de abacaxi antes e depois dos jogos têm virado notícia e motivo de debate. Estaríamos diante de um novo superalimento? Até que o Globo Esporte desvendou o grande mistério: abacaxi consta na lista de frutas oferecidas pela seleção brasileira aos seus jogadores. Eu arriscaria que talvez Vini também goste de abacaxi.
20 de junho, sábado. O árbitro alemão do disputadíssimo jogo entre EUA e Austrália precisou de atendimento médico por conta de uma câimbra. Recebeu um suco de picles no campo. Não dou um mês pra Gabriela ex-Pugliesi lançar uma gominha de creatina zero açúcar sabor picles. Afinal, só isso separa um Silva que treina com aplicativo gratuito e sacos de cimento de um grande atleta.
21 de junho, domingo. Romário é prova de que um ídolo sempre pode destruir seu legado ao se mostrar um ser humano execrável.
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24 de junho, quarta. A vizinhança finalmente entrou no clima da Copa e finalmente vamos enfrentar um adversário que dá pra odiar. Se bem que ninguém odeia a Escócia. Só vejo comentários de compaixão por Deus ter abandonado esse pedaço do globo no quesito beleza. O mesmo pode se dizer da Bósnia e da Noruega. Inclusive, ninguém aguenta mais essa remada viking. Já entendemos que vocês são brancos de estatura enorme com orgulho do passado naval colonizador.
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25 de junho, quinta. O Brasil, enfim, entrou de cabeça na Copa. Passado o jogo contra a Escócia, a soberba voltou, a identidade nacional se alinhou. É como se ninguém nesse país um dia tivesse bebido detergente. As nações abastadas jamais entenderão o significado de uma medalha e de um troféu pra gente. É o esporte que sustenta a fé do povo no próprio país. No meio de tanta sarrafada cotidiana, é o que nos dá orgulho, o que faz a gente acreditar nas viradas da vida, dá um gás pra levantar de manhã. Quando o futebol está em baixa, pelo menos em terras brasileiras o vôlei assume esse lugar.
26 de junho, sexta. Enquanto trabalho, a França deve estar goleando alguém. Segundo o pai do meu filho, é difícil torcer contra os comedores de croissant devido à qualidade que estão estregando nessa competição. Pra mim continua sendo facílimo, embora os atributos físicos do elenco inteiro sejam deslumbrantes.
27 de junho, sábado. Reúno amigos no frio, debaixo de chuva, para assistir ao grande clássico entre Colômbia e Portugal. Preparo um caldo de abóbora, esquento pinhão, o povo chega com mandioca frita, mas não compartilho a cerveja porque sofro de cólicas e tomei um remédio. Segundo a IA do Google, a ingestão de álcool com analgésicos pode sobrecarregar os rins. Ainda não tinha visto os conterrâneos dos meus parentes em campo e fico constrangida pela ruindade. Também xingo o pai do meu filho, que fez muita propaganda sobre a qualidade do time colombiano. Essa partida está no nível de Áustria e Jordânia, que tenho certeza que apenas uma pessoa assistiu: o responsável pelo péssimo compilado de melhores momentos da Cazé TV.
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28 de junho, domingo. Não vivi a última Copa com a empolgação costumaz, pois meu filho tinha acabado de receber alta depois de sete meses de hospital. E naquela final entre Argentina e França a gente estava de volta à internação por conta de uma cirurgia. Fico me perguntando quando, em que momento da nossa história o futebol perdeu o protagonismo pras marcas. E aí depois ainda vem Zezinho me dizer que a transmissão é de graça. O entretenimento nos custa caríssimo. O corintiano com o qual sou amancebada conta que já nos tempos em que fritou hambúrguer em Londres, isso faz vinte anos, as partidas inglesas eram interrompidas do nada por intervalos comerciais. Realmente, a mesma terra que pariu o futebol pariu também o capitalismo.
29 de junho, segunda. Um clima delicioso de feriado no ar. Os cachorros estão encolhidos nas suas casinhas, as formigas sumiram do jardim, as casas da vizinhança acumulam parentes. Pedi uma pomada pro meu filho via delivery e perguntei pro entregador se estava otimista com o hexa. Ele acha que se passarmos do Japão já vai ser um feito histórico. Meu pai gostou do primeiro tempo, acha que dá pra virar. Minha mãe ficou nervosa com o gol nipônico e foi fazer pipoca caramelizada. Se eu encontrasse o moço Martinelli na rua, não iria reconhecer, mas agora já cogito um pôster na sala.
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Saio da aula de dança na prorrogação entre Paraguai e Alemanha. Parte dos marombas do turno da noite se reúnem em torno da TV de frente para a máquina de fazer crucifixo. O professor comenta que está torcendo pro Paraguai, o que não entendo, pois não parece óbvio que qualquer ser vivo fora da terra do chucrute escolheria o Paraguai? Aí lembro que moro em Santa Catarina e aqui vende strudel em cada esquina. Quando o zagueiro converte o último gol e oficializa a eliminação alemã, todo mundo grita. Fico tão enlouquecida que, se alguém me oferecesse, brindaria com uma dose de whey sabor panetone.
30 de junho, terça. Respeito muito a Costa do Marfim e parabenizo a equipe pelo nível que jogou contra os vikings. Só que prefiro enfrentar os europeus sempre, com exceção da França pela eminência de vexame. Engana-se quem pensa que o nosso desafio consiste em conter a muralha loira norueguesa. O grande duelo estará na arquibancada. Precisamos calar as remadas nórdicas e oferecer um contraponto à altura. Apoio a ideia do “créu”. A questão é que quem estará no MetLife Stadium não é o grupo Olodum ou a torcida do Corinthians, mas a família do Luciano Huck e outros Enzos.
VAR analisa expulsão no Equador: PROMOÇÃO SELEÇÃO DE PRÊMIOS ITAÚ, QUANTO MAIS VOCÊ USA, MAIS TAXAS PAGA.
Da minha parte, já tirei o cachorro quente do cardápio do próximo domingo e substituí por caldo de ervilha, uma versão menos calórica e mais ufanista. Ando tranquilizando todas as pessoas ao meu redor, pois o bruxão ganês, os búzios ciganos, o tarô transpessoal, o Cacique Cobra Coral e o resto das divindades estão com a gente nessa. Sem falar na população de Índia e Bangladesh, que representam metade do planeta. Na última vez que um jogo do Brasil caiu numa festa de aniversário minha, Taffarel pegou dois pênaltis e vencemos a Holanda. Arrisco que depois passamos pelo México também, já que os vizinhos da Maria do Bairro têm chances de eliminar os comedores de batata. Desejo muito uma semi contra a Argentina pelo alto grau de sofisticação de memes que a população sul-americana entregará. Infelizmente, apenas um meteoro tira essa taça dos franceses. Torçamos pelo meteoro. 

🔸 LIVRO. Não é de hoje que o futebol nos desperta um misto de sentimentos contraditórios. Já na Copa de 58, quando não havia o que criticar em termos de qualidade técnica naquela seleção, nossos jogadores acumulavam polêmicas e o mercado já manipulava cada vestígio do esporte a seu favor. Tudo isso fica claro na biografia de Manuel Francisco dos Santos, o nosso Garrincha. Escrita por Ruy Castro, o mago das biografias brasileiras, a obra deveria ser distribuída em cada esquina canarinha. Trata-se de um mergulho histórico e jornalístico na década 50 e 60, especialmente no Rio de Janeiro, com um jeitinho de ficção. Garrincha foi um herói absolutamente humano, capaz de fazer a gente exaltá-lo, xingá-lo e se compadecer dele ao mesmo tempo. Sua vida se confunde com a biografia do próprio Brasil, uma mistura de amor, catarse e tragédia. Só a escrita do senhor Castro e o rigor da apuração, com mais de 500 entrevistas, já valem a leitura.
🔸 NEWSLETTER. Mariana Coutinho adora nos presentear com ótimos beliscões aqui na rede social dos textos. E agora se superou com uma edição sobre o fenômeno das Rory Gilmore da Geração Z. Como fã incondicional da melhor série de todos os tempos, autorizo a comparação hahaha. Em resumo, a diva alerta para um novo surto no Tik Tok: há uma corrida por resultado também em termos de formação cultural. Um monte de gente querendo construir um repertório às pressas, como se existisse uma fórmula pronta e um atalho para se tornar uma pessoa interessante. Obrigada por não ser mais uma chata tentando ser cabeçuda, Mari!
🔸 MÚSICA. Dez anos mais nova e cria da internet, minha irmã não se conforma com a minha lentidão em descobrir artistas em alta. Fui comentar com ela pessoalmente sobre a sensação argentina Milo J e recebi, mais uma vez, uma cara de espanto pela vagareza. Na verdade, só conheci o jovem cantor porque Sandra Guimarães me mandou uma mensagem exigindo que eu escutasse seu show no Tiny Desk. Coloquei pra ouvir no banho e já saí totalmente Milozizada. Suas batidas melancólicas e letras ácidas atacam diretamente a viralatice latina, ainda mais agora com Peru e Colômbia também alinhados à extrema direita. Não é qualquer um que manifesta suas causas enquanto entrega música boa.
🔸 CONTEÚDOS PROTEICOS. Pela quantidade de vídeos com atrocidades proteicas que recebo diariamente, sou obrigada a criar um canto destinado a essa curadoria. A partir de agora, aproveito este espaço pra isso. Neste mês, meus preferidos foram dois: um nutricionista chileno que produz vídeos com informações bastante controversas criou um rap pra explicar como funcionam as proteínas vegetais e este gênio sugeriu o desenvolvimento do vape de proteína, depois, o adesivo proteico para se livrar do vício. Por favor, continue me mandando.
🔸RECEITA. Tendo em vista que os carismáticos cabo-verdianos devem ser eliminados pela Argentina nesta semana, resolvi me despedir pesquisando suas receitas mais populares. O pequeno país come basicamente a mesma coisa que a gente: feijoada, buchada, peixada, canja, cuscuz, pastel e muita banana. Com pouco tempo para desenvolver adaptações vegetais, escolhi as brinholas, um lanchinho de banana que lembra muito o nosso bolinho de chuva. Só faltou combinar com São Pedro. Como não dá pra fritar nada por imersão com a casa inteira fechada de tanta chuva, tive que me contentar com rodelas de banana da terra grelhadas. E foi isso. Nesses primeiros dias de mata a mata, me besuntei de café e banana levemente engordurada quase todas as tardes. Mas até o básico esconde segredos. Primeiro, usar óleo de coco. Sim, ele não foi feito para receitas fitness ou pseudociências. A banana está para o coco assim como o tomate está para o manjericão e o morango, para o chocolate. Segundo, a fogo precisa estar de médio pra alto, uma vez que a ideia não é cozinhar nem fazer as rodelas desfalecerem. Vale colocar uma pitada de sal no final para realçar a doçura. Quiçá, uma pitada de canela.

É isso?
Perdão pela insistência no tema Copa do Mundo, mas nunca prometi agradar todo mundo hahahaha.
Obrigada pela parceria e pelo apoio de sempre.
Um beijo patriota sabor rocambole de milho com recheio de espinafre,
Juliana.
