O cio da cadela
Não tenho dúvidas de que estamos vivendo, nos dias de hoje e em quase todos os cantos da terra, uma crescente ameaça do fascismo e sua construção autoritária que potencializa o racismo, a xenofobia, a misoginia, e tantas outras manifestações de ódio com a consequente violência que causa mortes e genocídios.
Em termos macro “a política existe para que possamos discordar sobre quase tudo e ainda assim construir consensos que nos preservem a vida”, mas quando a morte vira projeto deixa-se de existir a divergência e a política perde a sua finalidade. Observando a história percebe-se que quando o capitalismo não entrega suas ilusões ele se apoia em projetos de ódio e morte que constroem o fascismo, basta pesquisar sobre a ascensão do nazismo na Alemanha da década de 1930.
O dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht nos alertou no epílogo de sua peça “A Resistível Ascensão de Arturo Ui”, que “o ventre de onde saiu o fascismo ainda é fecundo”, a expressão foi adaptada popularmente para “a cadela do fascismo está sempre no cio”, e aqui hoje quero falar do cio da cadela que habita cada um de nós, o fascismo que mora dentro de nós, para facilitar vamos chamá-lo de microfascismo e perceber que o macrofascismo que lida com as grandes estruturas do Estado provocando a ascensão de regimes autoritários, necropolíticos e genocidas, só é possível porque é alimentado e respaldado pelos cios de nossas cadelas particulares disseminado na nossa cultura por tendências autoritárias presentes em nossos desejos e comportamentos cotidianos.
O amor ao poder que nos domina, o espírito competitivo que nos é implantado desde a infância, o individualismo exaltado pela busca de sucesso na esteira reducionista de produzir e consumir, somados ao nosso antropocentrismo, que nos faz crer que ao invés de sermos parte do universo, o universo foi feito para nosso uso, são caminhos mentais que nos fazem reproduzir lógicas de dominação e exclusão e ainda nos provocam o desejo de controlar o comportamento alheio nos espaços da família, do trabalho, da escola e das redes sociais.
Por outro lado, trago o psicanalista Paulo Passos com algumas de suas reflexões relativas aos nossos desamparos, vazios e faltas, que considero contribuir para que os nossos microfascismos se unam na construção do macrofascismo, nos fazendo renunciar a nossa liberdade e nos tornar servos voluntários. Vou elencar três reflexões que ele nos traz: “A criança faz birra quando o desejo é frustrado, o adulto imaturo cria ideologias, guerras e inimigos para não precisar lidar com a própria falta.” - “Quando o sujeito não suporta a própria falta, procura um senhor que lhe prometa completude, há sujeitos que preferem uma ordem injusta à angústia da liberdade sem garantias.” – “O messias existe para poupar o sujeito do trabalho de ser livre.” -.
Para encerrar, o que considero mais grave, que é quando nossa cadela particular diz às pessoas que isso ou aquilo é melhor para elas, baseados em nossas convicções e sem respeitar os desejos dessas pessoas, com o agravante de quando ainda dizemos que estamos fazendo aquilo em nome do “amor” que sentimos por elas. Uma vergonhosa chantagem que sustenta o nosso gosto pelo poder.
“Dedico essa crônica a todos que combatem o cio da cadela que lhes pertence.”

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