A cenoura e a laranja
Um colaborador de nosso projeto e primo dos primos lá do Santo Antônio do Grama, meio parente e amigo, o Zizi Guimarães, propôs um tema para nossa crônica de hoje e o título não é porque ele seja um agricultor, é apenas uma analogia com uma parte importante do modo de vida que levamos e que nos reserva na maioria das vezes muita agonia e sofrimento quando chegamos ao final de nossas carreiras profissionais, desvalorizados e com sensação de inutilidade.
Desde cedo nos contaram muitas histórias que compõem a estrutura ideológica do sistema capitalista e na maioria das vezes as ouvimos como verdades absolutas, coisas do tipo “o trabalho dignifica o homem”, sem comentarem que primordialmente o trabalho enriquece os donos do capital, de que devemos estudar para “subir na vida”, sem fazerem alusão de que o conhecimento deveria promover o nosso espírito crítico, tem também o “Só é pobre quem não se esforçou o bastante”, uma falácia chamada meritocracia que não leva em conta os privilégios de poucos e por aí a fora ouvimos muitas outras meias verdades e inverdades que vão nos custar a nossa saúde mental quando nos deparamos com a velhice, digo velhice mesmo, porque considero um privilégio ficar velho, bem usado e vivo, talvez aí esteja a oportunidade para vivermos nossos sonhos antes considerados impossíveis.
Talvez vocês se lembrem de um desenho animado onde amarram uma cenoura em uma haste no pescoço do cavalo para que ele a veja e nunca a alcance e daí não pare de correr, algo similar nos acontece quando fazemos o ensino fundamental, médio, vestibular/Enem, faculdade, estágio, arrumamos um emprego, percorremos uma carreira, compramos bens, carros, casas, nos casamos, temos filhos, constituímos famílias e é claro que estou falando de nós, os privilegiados. Depois ficamos velhos sem perceber que pouco questionamos sobre esses “desejos cenouras”, se eles eram nossos mesmos ou se nos foram impostos pelo senso comum.
Aí chega a hora da laranja, depois de chupados ou de termos virado suco pela ação da máquina de produzir/consumir, com nosso caldo todo entornado, viramos “bagaço”, nos tornamos descartáveis e se focamos quase toda a nossa vida nesse moto contínuo proporcionado pelos desejos dos outros agora o preço é uma dor muito grande, um sofrimento mental quase que permanente, um preço que pagamos por não ter sonhado outros sonhos, talvez nossos desconhecidos sonhos e de não ter lutado por um outro mundo possível.
Muita calma nessa hora, a primeira coisa a fazer é não entrar na culpa de não termos tido outra vida, não existe passado a não ser as lembranças, melhor é ressignificar e fazer luto do que lembramos de ruim e nos alegrarmos sem saudosismos do que nos aconteceu de bom. O melhor dia de nossas vidas é hoje, aqui e agora, só temos ele e sobre futuro, o futuro sempre será construído pelas nossas ações no presente diante dos acontecimentos. Então, nem depressão com o passado e nem ansiedade com o futuro, vivamos agora. Para isso é importante mapearmos nossos desejos sem nos preocuparmos com o que vão pensar de nós e nem com a nossa idade, ela simplesmente não interessa, porque só estarão incapazes de desejar os mortos, independentemente da idade biológica.
Disse um poeta que a vida é muito mais complexa do que a nossa forma de enxergar um mundo só, a vida não é útil como diz um título de livro do Ailton krenak, a vida é fluição, confluências, como nos ensina Nego Bispo, e eu digo que a vida não é certa, só a morte é certa. Não interessa se estamos no início, no meio ou no fim da corrida da cenoura, não interessa se somos uma laranja verde, de vez, madura ou se já viramos “bagaço”, se temos vida, ela é aqui e agora. As laranjas têm sementes, nós, desejos, e então é só permitir brotar. Importante mesmo é nos emocionar, até sei de um ex-bancário que sonha em ser poeta, porque sabe que “os sonhos não envelhecem...”.
“Dedico essa crônica aos laranjais.”

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