Suicídio
Somos capazes de imaginar o fim do mundo e não somos capazes de imaginar o fim do sistema que está acabando com a nossa espécie, assim como o suicida é capaz de destruir o corpo que carrega uma dor insuportável e não é capaz de destruir o que lhe causa a dor. Me parece uma questão de servidão voluntária diante do que nos causa mal-estar.
Infelizmente estamos numa curva crescente do número de casos de suicídio e a campanha “Setembro Amarelo” é importante para trazermos à tona a discussão sobre esse ato consciente e intencional de causar a própria morte e de alertarmos as pessoas sobre o cuidado com quem apresenta o que chamamos de ideação suicida.
O suicida dá sinais como o de expressar o desejo de morrer ou desparecer, de ter sentimentos profundos de desesperança, inutilidade e desamparo, de se sentir um peso para os outros, de se afastar e se isolar de parentes e amigos...
Diante destes sinais, nunca, em hipótese alguma devemos dar conselhos comparando a vida da pessoa com ideação suicida com a de pessoas em situações piores e que querem viver, isso só piora, o sujeito se acha um fraco e aumenta a sua angústia e frustração consigo mesmo. Se quisermos ajudar devemos ouvi-lo, mais do que isso, escutá-lo e para tentar evitar o suicídio temos o caminho de convencê-lo a procurar ajuda, que pode ser junto ao SUS nos Postos de Saúde da Família e nos CAPS, no CVV telefone 188, em projetos como o nosso e até particular, se ele tiver o privilégio de poder pagar.
Mas, embora que o “Setembro Amarelo” tenha o mérito inegável de quebrar tabus e dar visibilidade ao tema, sabemos que tudo isso não é suficiente porque os determinantes sociais da saúde mental como o desemprego, a precarização do trabalho, a fome, o racismo, a violência doméstica, a desigualdade de gênero, a LGBTfobia, não são considerados e se compõem com discursos moralistas e suas frases de efeito contendo termos como “força de vontade”, “resiliência”... O que só gera mais sentimento de culpa e frustração em quem está gravemente doente.
Importante ainda ressaltar a patologização acompanhada da indústria farmacêutica que tendem a reforçar um tratamento apenas no modelo biomédico e a fraca estrutura com falta crônica de psiquiatras e psicólogos na rede pública – aqui é sempre bom lembrar do dinheiro da arrecadação que vai pagar a tal dívida pública aos banqueiros e as corrupções do execrável orçamento secreto – e também da burocracia dos planos de saúde.
No manejo de nossa clínica pela borda diante de alguém com ideação suicida, fazemos parcerias com outros profissionais, contatamos sigilosamente parentes e amigos para ficarem atentos e principalmente escutamos e tentamos fazer com que o sujeito escute de si mesmo quem e o que lhe provoca a dor, na expectativa de que ele desloque a culpa de si para as causas que o massacram.
A ideia é que surja o desejo de enfrentar os inimigos de nosso bem-estar e que esse desejo possa vir substituir o desejo de destruir o corpo que carrega a dor que se tornou insuportável, passando a considerar insuportável aquilo que nos provoca a dor e então nos levando a lutar contra o inimigo externo preservando o nosso bem maior: a vida!
O sonho é transformar a energia de destruição de si em força contra nossa servidão voluntária e de luta para mudar o que nos oprime, porque quem sonha não se mata, luta! E segue a vida cantando como Gonzaguinha: “...Viver e não ter a vergonha de ser feliz...”
“Dedico a crônica de hoje à vida.”

Seja o primeiro a comentar
Faça o login para comentar.
Entrar