O Porquê
Eram [00:56, 21/08/2026] e Lilian, uma sobrinha torta que se tornou amiga me escreve: “Eu sei que jajá vai chegar a crônica dessa semana e depois de duas taças de vinho em uma mesa de bar com amigas, queria sugerir um tema sobre o qual gostaria de ler: “O porquê”, o porquê das coisas. Como essa pergunta moveu e move a humanidade, o porquê de um “porquê” poder mudar a vida de alguém, o porquê do mundo, o porquê dos sentimentos. Tô por aqui escrevendo também e queria conhecer outras perspectivas. Acho um assunto interessante e gostaria de ouvir a sua perspectiva, de quem estudou psicologia, leu os grandes nomes e se aprofundou nessas questões. Tudo começa e tudo termina com um porquê, seja pela explicação do porquê de uma escolha ter sido tomada ou pelo porquê que levou um ser àquela escolha.”
Logo depois [01:01, 21/08/2026] ela volta a me escrever: “eu entendo a minha insignificância e das minhas batalhas, comparadas à sua razão de escrever, e não digo isso em um lugar de vitimismo, mas de um lugar de consciência. Independente, acredito que o tema tem muito potencial e surgiu de uma conversa do porquê o usuário de droga, não é só um usuário, do porquê de escolhas são tomadas (mesmo que seja uma escolha ir para a rua, existem os porquês dessa escolha ser tomada), etc...”
Então, a crônica sobre o porquê está acontecendo aqui e agora, além da Lilian escolher o tema estamos escrevendo, sem que ela saiba, a quatro mãos. Ela já começou o texto e eu vou dar continuidade, talvez porque nos amamos e nos tornamos amigos... E o mais incrível: o amor acontece, ele é inevitável e imanente, o amor não tem porquês, apenas acontece em abundância e de diversas formas.
Ao buscarmos porquês, o que é fundamental, devemos ter em mente a importância de muitas vezes não obtermos respostas. Experimentarmos um desejo próprio, que nos faz brilhar os olhos, sem questionarmos o porquê, pode nos trazer a felicidade de apenas nos permitir sentir. Como é importante viver um desejo nosso sem explicações.
Já as últimas questões colocadas por Lilian, que segundo ela foram a origem de sua proposta de reflexão, vamos começar pela primeira delas sobre a dependência de drogas, então trago aqui o médico e autor “Gabor Maté” no livro “No reino dos fantasmas famintos: Encontros íntimos com o vício” onde ele nos diz que “A dor é o tema central do vício. Só quem está com grande dor, deseja anestesiá-la. Então, não pergunte por que do vício. Pergunte o porquê da dor.” Sobre ir para a rua, tornar-se uma pessoa em situação de rua, nossa experiência na clínica pela borda vai nos dizer nesse momento que os porquês são infindos, e que quase tudo gira em torno de quando o desejo do sujeito não se enquadra no modelo ditado pelas estruturas da família, das religiões e das instituições socio, políticas e econômicas do Estado. Estas estruturas tentam impor preferencialmente os modelos neoliberal, patriarcal e racista de vida, em outras palavras, quando a pobreza e miséria, a falsa moral dos bons costumes e o preconceito e a discriminação atuam, tudo isso se tornam os grandes porquês da exclusão de quem deseja por fora do senso comum.
Para terminar digo que os porquês são a mais importante alavanca do conhecimento, e quanto mais buscamos conhecer percebemos que mais importante do que obtermos respostas é que saibamos fazer boas perguntas, lembrando sempre que o coração e a alma de nossa saúde mental são os nossos desejos e sobre isso cito @paulopassos_psicanalista: “Onde a ciência determina uma explicação e a moral oferece um culpado, a psicanálise confronta o sujeito e a sua covardia frente ao desejo.”.
“Dedico a crônica de hoje para a amiga Lilian, uma mulher que busca porquês e desejos.”

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