Não desiste de nós!
Dia difícil de nossa reunião com o povo da rua em torno do cachorro-quente, chuva e frio constantes, ruas alagadas, um homem com o rosto inchado de sinusite chorando de dor, duas mulheres relatando a presença de um cafetão escravizando-as, um jovem com crise de abstinência de crack sem dinheiro para comprar a pedra, muita fome, roupas úmidas... Quando já íamos embora, mais uma vez deixando todas aquelas dores para trás, dores com as quais convivo há mais de quarenta anos, me sentia triste, quase sem energia de esperançar, foi quando veio uma mulher jovem em direção ao carro na hora que partíamos e sem se aproximar muito, gritou: “não desiste de nós!”.
Parecia apenas mais um apelo de quem está no abandono das ruas, mas soou mais longe dentro de mim, escutei um nós que não se referia apenas aos que se encontram no desamparo, mas que alcançava todos nós, os chamados humanos, inclusive os que como eu são cheios de privilégios, e para conservá-los vendem a alma aos diabos da competição e do individualismo de nosso modelo civilizatório e no máximo praticamos ações paliativas como as daquela noite.
Fui me perguntando como que diante do milagre da vida, onde átomos que outro dia pertenciam às estrelas e que agora se juntam em um Ser capaz de escrever poemas, de abraçar, sorrir, chorar e de dizer eu te amo, como esse Ser, fruto do milagre da criação divina para os que creem ou do grande momento do acaso para os que não creem, distraidamente ou em troca de algumas migalhas de confortos imediatos, deixa um sistema de exploração tomar conta e nos transformar em conformados e contemporizadores de desigualdades, de guerras e da destruição da mãe terra nos transformando em verdadeiros servos voluntários guardiões do desastre anunciado?
No caminho de volta resolvi pedir companhia ao álcool e levei para casa uns latões de cerveja para me ajudar a pensar ou a dormir, o apelo daquela mulher que se expandiu na minha cabeça atingiu em cheio o meu modelo civilizatório, modelo que caminha na desumanização do que somos ou pretendemos ser: gente... Tento não desistir, principalmente de mim, um privilegiado que nada faz além de apagar incêndios sem conseguir estancar as origens do fogo.
Tenho o hábito de quando bebo sozinho sonhar acordado e meu devaneio desta vez foi imaginar aquela moça mulher, que fez o apelo, tocando violino como solista de uma orquestra, ela executava “O Trenzinho do Caipira” de Villa-Lobos em pleno Palácio das Artes em Belo Horizonte e trocávamos olhares e sorrisos, eu na primeira fila da plateia e ela bem na ponta do palco, uma solista à frente de uma orquestra sinfônica. Ela deve ter tido oportunidade de estudar música, pensei...
Raul Seixas veio do além para o meu pensamento e me acordou de meu devaneio, me trouxe a lembrança de suas palavras: “Não quero mudar o mundo com esse papo furado. Só acredito em quem pulou o cercado!” e decidi escalar o cercado, para começar “vou parar de chamar de pecado tudo aquilo que em mim serve a obediência”, certo de que opressão, injustiça, pobreza, miséria não são destino, são projetos, projetos que primeiro lutarei para destruir dentro de mim e por consequência ajudar a varrê-los da face da terra.
Agora é dormir para amanhã voltar a caminhar esperançando e reposicionar minha subjetividade, essa argamassa que me constitui no mundo, vou na direção ética e estética da valorização da vida e como diz o compadre Tadeu Bibiano, lá das Oliveira no centro sul das Minas Gerais: “...deixa o boi bebê ribeirão...”.
“Dedico a crônica de hoje à persistência.”

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