Mais uma vez as férias passaram voando, pelo menos, desde que voltou nas últimas duas semanas. Era estranho pensar que sua casa era aquele pequeno espaço compartilhado e não a enorme mansão que seu pai construiu há pouco tempo. E, talvez, nem fosse tão estranho assim se pensasse que todas as suas coisas estavam naquele quarto desde que se entendia por gente. Bem, não exatamente naquele quarto, mas naquele colégio.
Sentia falta do silêncio desde que todos voltaram, mas tinha que admitir que era bom ver os cômodos ocupados outra vez. E, embora nunca tenha ficado completamente sozinho, Pedro estava feliz em começar mais um semestre.
Ele fechou o livro em seu colo com cuidado, pois as páginas já não estavam tão firmes na lombada quanto costumavam ser, o que não o impediu de se espreguiçar esticando os braços e pernas enquanto o livro dançava sobre o jeans.
— Você está lendo essa coisa de novo? — Matheus saiu do banheiro com uma toalha amarrada na cintura enquanto esfregava outra no cabelo quase todo raspado.
— Gosto de começar o ano com esse — Pedro deu de ombros.
— Mas você já não leu, tipo, um milhão de vezes?
— E você já não viu aquele filme ruim várias vezes também? — ele revirou os olhos.
— Ei! Missão impossível é um ótimo filme de ação e espionagem!
— Meu Deus, vocês não vão calar a boca? — Navarro tirou os fones de ouvido num puxão. Estava deitado na cama o tempo todo, mas nem a música era capaz de abafar as vozes dos dois.
Matheus deu de ombros, pegando as roupas na cômoda ao lado de sua própria cama. A gaveta estava praticamente vazia, restando apenas duas bermudas e algumas camisetas, pois o restante já estava organizado dentro das malas que seus pais lhe mandaram.
— Essa camiseta é minha! — disparou Navarro assim que a colocou no corpo.
— Nada a ver…
— Desde quando você tem uma camiseta que não é preta? — foi a vez de Pedro e eles gargalharam.
— Até que eu vou sentir saudade disso aqui… — Matheus olhou ao redor do quarto, nem se lembrava há quanto tempo morava naquela casa.
Sentiria falta do banheiro com duas pias que eles revezavam de manhã, da cama de molas que ficava entre as dos amigos, da TV que Navarro trouxe escondido da coordenadora e que os fez ficar três dias de detenção. Sentiria saudade até da estante de livros velhos de Pedro atrás da porta.
— Nem começa! — Navarro levantou num pulo — Ainda é cedo pra se despedir!
Matheus revirou os olhos, mas seguiu os amigos para o refeitório. Ele não precisaria participar do primeiro período se não quisesse, porém, estava tão animado quanto os outros para ver Fernanda acabar com os pixotes. Ele ficaria até o final, mesmo que tivesse que aguentar o monólogo incessante de Nicolas.
Quando chegaram na cozinha, ela estava praticamente vazia, o que era ótimo, já que Pedro costumava cozinhar para eles quando estava assim. O pão na chapa dele era impecável com uma crostinha de queijo e manteiga… Ah, como sentiria falta.
É claro que aprenderia com os melhores e teria a chance de disputar a taça em breve, mas a sensação de que perderia muita coisa não saía de sua cabeça.
Assim que Pedro colocou os pães na mesa, Matheus sentiu o cheiro delicioso do misto quente e do café recém-coado, com certeza deveria estar melhor do que a bolacha de água e sal que iria comer. Navarro foi o primeiro a pegar, observando a novata maluca passar logo atrás deles com a cara fechada, a roupa inteira preta deixava os cabelos loiros ainda mais destacados, quase como se fosse proposital.
— Você já sabe onde vai ficar lá? — Pedro chamou a atenção deles.
— Não… Acho que vou descobrir quando chegar — Matheus percebeu que Navarro continuava encarando a menina.
— Nossa, eu ia estar desesperado para saber tudo…
— Mas você é neurótico, né? — Navarro finalmente olhou para eles — O Matheus está certo…
— Na real… Pra ser sincero — Matheus respirou fundo — Tô apavorado…
Pedro chegou a engasgar com o misto quente, enquanto Navarro caiu na risada até perceber que só ele estava rindo. Matheus encarou o prato à sua frente, de um lado, o pão estava levemente torrado e, do outro, exibia uma bela camada de queijo tostado. No entanto, ele havia perdido o apetite.
— Você está falando sério? — a voz de Pedro saiu arranhada.
— Eu… Sei lá — agora Matheus observava a superfície branca da mesa e suas pequenas imperfeições. Ainda havia vários riscos circulares de quando Navarro achou que seria uma ótima ideia lavar o tampo com palha de aço — Queria ficar…
— Você está brincando!? — falou o culpado por riscar a mesa — Essa é uma oportunidade única!
Matheus suspirou. O amigo estava certo, quantas pessoas eram chamadas para jogar no São Paulo assim? Ainda mais depois de ganhar o Mundial. Mas algo não parecia certo.
Ele virou na direção de Pedro buscando alguma compreensão e o rapaz só o encarou de volta em silêncio, parecendo tão surpreso quanto o outro.
— É, você tem razão… — ele respirou fundo, soltando o ar devagar — Deve ser o nervosismo.
Os amigos concordaram e, rapidamente, trocaram de assunto, bem a tempo da chegada das patricinhas. Como sempre, Ana Clara sentou ao lado de Pedro e lhe deu um beijo no rosto. Estava usando uma camiseta verde curtinha para mostrar a barriga chapada de aeróbica (ou, pelo menos, era o que ela dizia ser), shorts jeans comprido o suficiente para a coordenadora não reclamar, um par de sandálias que arrastavam no chão e um rabo de cavalo que seguravam os fios dourados como um acessório no topo da cabeça.
Priscila vinha logo atrás, com seu vestido azul rodado, o cabelo escuro balançando na altura da cintura e roçando na pele cor chocolate dela. O sorriso meigo e a voz suave combinavam com o rosto delicado.
Ela sentou ao lado de Matheus, enganchando o braço no dele, e, apesar do esforço, o jogador sorriu de volta. Não era culpa da Pri, é claro, ele só não estava tão animado quanto gostaria.
— Hmm, que cheiro gostoso! — a doçura de Priscila encantava até mesmo Navarro.
— Pedro que fez… Quer? Pode pegar — Matheus empurrou o prato para ela — Não estou com fome.
— Tem certeza? — a menina piscou os grandes olhos castanhos como uma boneca e ele só fez que sim com a cabeça.
— E você, Ana, quer um? — Navarro mantinha o olhar afiado — Posso fazer pra você…
— Não, obrigada — ela entrelaçou os dedos nos de Pedro — Não como carboidrato de manhã… Prefiro algo mais leve.
Enquanto eles tagarelavam sobre dieta e outras besteiras daquela, Pedro viu Fernanda pegar um iogurte na geladeira e sentar sozinha na menor mesa do refeitório. Dessa vez ela não estava com os fones de ouvido e olhava a cada dois segundos para a mesa cheia de pixotes. Então, o olhar de Pedro cruzou com o de Matheus e eles se encaram por alguns instantes, como se discutissem se deveriam chamá-la para a mesa deles. Afinal, ela era uma estrela, podia ser a mais sem graça, mas ainda era um deles.
— Nada! Eu tenho certeza de que o Mat vai chamar a gente pros jogos! — ouvir a risada de Navarro foi como despertar de um transe.
— Estou tão feliz que te chamaram! Meus pais estão orgulhosos! — Priscila, de repente, abraçou Matheus e ele não sabia o que dizer, havia conhecido os pais dela há poucos meses.
— Sei como é! — Ana Clara se aninhou em Pedro — Meus pais contam para todo mundo que o genro deles é o herdeiro da Construtora VS Arruda.
Pedro cerrou o maxilar, engolindo a saliva com dificuldade. A menina mantinha os braços ao redor dele, enquanto ele parecia um idiota com as mãos flutuando a centímetros dela, sem conseguir tocá-la, não com a palavra herdeiro ecoando em sua mente.
E, sem pensar duas vezes, se trancou no banheiro do quarto no andar de cima e jogou água no rosto uma, duas, três vezes… A pele já estava gelada no momento em que ele parou, os pingos escorriam pelas bochechas e se acumulavam no queixo, onde alguns pelos rebeldes teimavam em nascer.
Precisava se concentrar no que ainda tinha que fazer, então, Pedro saiu do banheiro em silêncio, odiando a presença de Navarro. Ele o encarou de cima a baixo, como se procurasse por alguma coisa, mas preferiu não dizer nada, talvez porque já estavam atrasados o suficiente.
A sala de aula estava cheia outra vez e todos os lugares estavam ocupados, exceto pelas carteiras ao lado da janela, que pertenciam a eles desde sempre. Os novatos estavam no lado dos pixotes, espalhados pelas fileiras e Fernanda, como o esperado, sentou na frente entre os dois grupos.
Sem o professor na sala, os burburinhos se espalharam pelos quatro cantos e, de onde Pedro estava, conseguia ver a todos. André estava do outro lado, encostado na parede com a carteira paralela à dele, o observando, esperando pelo próximo movimento. O que Pedro achou extremamente engraçado vindo de alguém que estava sempre um passo atrás.
— Você sabe o que fazer… — Renan cochichou com um sorriso confiante, dando espaço para ele passar.
O presidente da turma, ou Vossa Majestade como os estrelas gostavam de chamá-lo, passou os detalhes do plano na noite anterior. Não que eles não acreditassem na vitória de Fernanda, mas era como Majestade sempre dizia: esteja sempre preparado e nunca será derrotado.
Essa era uma das poucas coisas que Pedro concordava com ele e, só por isso, havia concordado com aquele plano estúpido. Então, antes que Nicolas chegasse, o rapaz trocou de lugar com Renan, indo para a carteira adjacente da ruiva novata. Ele tinha apenas meio período para testá-la e garantir que Fernanda seria vitoriosa.
Finalmente o professor entrou na sala carregando sua famosa valise de couro e, apesar do calor, ele vestia um blazer preto por cima da camisa lisa. O cabelo muito bem penteado para o lado o envelhecia uns dez anos e a armação arredondada dos óculos lhe davam uma aparência nobre.
Nicolas foi até a lousa, marcou a data e a introdução da aula “Nas escolhas, o ser”, foi tudo o que ele se deu ao trabalho de escrever e o restante ficaria por conta de seus alunos acompanharem.
— Matheus, não esperava te ver por aqui hoje… — o homem colocou as mãos para trás do corpo como se fizesse parte de uma corte.
— Não podia perder mais uma vitória da Fernanda, né? — Matheus se entreteve com os olhares ranzinzas dos pixotes e o professor conteve o riso.
— Bem, suponho que vocês tenham lido os livros que passei para as férias — Nicolas andou pela sala — Os novatos não precisam se preocupar, acredito que conheçam as obras que falarei nessa aula.
Pedro esperava alguma reação de Cíntia, um suspiro, uma inquietação, qualquer vislumbre de frustração… Mas, ela permaneceu focada no professor, com as mãos unidas em cima da mesa. E Nicolas começou seu monólogo sobre Realismo, comparando ao movimento de Distopia e citando autores e obras que Pedro já havia lido durante a vida, os mesmos clássicos que cresceu lendo até saber cada parágrafo de cor.
— Quem já leu “1984”? — o professor se ancorou na própria mesa e a madeira rangeu.
Quase todos levantaram as mãos, como Cíntia e Fernanda, como já era de se esperar, o próprio Pedro, o restante dos estrelas e, surpreendentemente, Gabriela. Além de mais um ou outro pixote,
— Qual o ponto principal dessa obra responsável por cunhar o termo Big Brother? — rapidamente, Fernanda ergueu a mão e Nicolas sorriu satisfeito com o breve resumo dela.
— Não acho que seja só sobre política — Pedro sussurrou para Cíntia e ela ergueu uma das sobrancelhas acobreadas — Também fala sobre uma sociedade passiva e sem sonhos…
— Olha só — a menina se inclinou na direção dele — O engenheiro júnior também gosta de ler…
Ele tentou sorrir, mas ela era exatamente igual às outras, não tinha dúvidas. O desdém no tom de voz, o nariz empinado demais e o olhar semicerrado o conferindo dos pés à cabeça era mais do que familiar naquele colégio.
— Um pouco — ele deu de ombros — Não tanto quanto você, imagino…
— O que quer aqui, estrela? — as sobrancelhas franzidas faziam as sardas dela saltarem.
— Sinceramente? — ele recostou na cadeira, cruzando os braços sobre a barriga — Ver se você realmente é boa.
Cíntia abriu a boca, mas não disse nada, e um sorriso ameaçou escapar pelos lábios. O professor continuou com a explicação, sem se dar ao trabalho de silenciá-los, porém, Pedro sentiu um olhar em sua direção. Bruna os observava discretamente, disfarçando entre uma ajeitada de cabelo e outra.
Então, o rapaz apoiou os cotovelos na mesa, praticamente se inclinando na direção da ruiva, e, com um sorriso, disse quase num sussurro:
— Espero que esteja pronta…
— Sempre estou pronta — ela devolveu o sorriso com acidez notável, mas Pedro apenas deixou passar.
Conhecia Nicolas como um de seus vários livros e sabia que Fernanda também. Pedro só precisou de um leve ruído, quase como uma pequena tosse, para que a colega virasse para trás e assentisse com a cabeça. Foi quando veio a pergunta do professor.
— O que mais podemos enxergar dentro dessa obra? — Nicolas olhou para Fernanda, mas quem levantou a mão primeiro foi Pedro. E, mais uma vez, Cíntia parecia impassível.
— Como o ambiente molda as escolhas individuais…
— Por exemplo? — o professor se apoiou novamente na mesa.
— Como o caso da censura usada para manter a sociedade alienada e passiva, já que qualquer questionamento era tratado com repreensão e violência — foi Cíntia quem complementou.
Nicolas ergueu uma das sobrancelhas, mas a menina parecia à vontade com esse tipo de reação, quase como se estivesse esperando pela surpresa no rosto dos colegas. No entanto, o semblante de vitória se desfez ao ver o sorriso presunçoso de Pedro.
A raiva faiscou em seus olhos enquanto o rosto enrubescia e, embora tentasse esconder atrás das palavras gentis, era fácil ler os sentimentos dela.
A menina era boa, de fato, mas lhe faltava disciplina para controlar o ego. Algo que Renan, com certeza, gostaria de saber e que ele diria no tempo certo.
— Mas vejam… — o professor retomou a aula — Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, por exemplo, vocês acreditam que o ambiente influencia o protagonista?
Fernanda ergueu a mão novamente, mais rápido do que qualquer um.
— Pra mim, ele estava tentando se rebelar contra as expectativas da sociedade…
— Mas, várias vezes ele foi egoísta — Cíntia não ergueu a mão e todos os olhares se voltaram para ela — Como quando ele pensa na possibilidade de casar com a Virgília, mesmo ela estando comprometida… Não tem nada a ver com a sociedade.
— Até pode ser egoísta, mas, pelo menos, ele estava indo atrás da própria felicidade — Fernanda nem se virou para a rival.
— Ele era imoral e não se importava em como suas ações afetavam os outros!
— Nunca disse que ele não era imoral… — Fernanda se virou o suficiente para que seus olhos encontrassem os de Cíntia — Ele tinha escolha, diferente das pessoas em “1984”, que eram torturadas e punidas por escolherem a felicidade delas.
— Já chega — Nicolas deu um passo para frente — Guardem isso para o questionário do próximo período… Parece que tem uma adversária à altura, Fernanda…
A menina deu de ombros e Cíntia assumiu sua expressão triunfante. No entanto, Pedro mal ouviu o que haviam dito, só conseguia pensar em como Fernanda estava certa, em como a busca pela felicidade pode parecer egoísta aos outros. Não ter que se preocupar com suas ações, mesmo que não estejam conforme a expectativa alheia, era um privilégio para poucos, para aqueles mais corajosos, alguém que ele gostaria de ser.
Então, um movimento discreto lhe chamou atenção, Bruna o estava encarando há poucos minutos e tentou disfarçar soprando um cachinho para longe, mas seus olhares se encontraram. Havia neles um peso compartilhado, quase invisível aos demais alunos daquele colégio, como se carregassem o mundo sozinhos.
Matheus também percebeu aquele brilho dolorido e, assim como Bruna, estava disposto a enfrentar o mundo para ver o sorriso daqueles que confiaram nele e que tinham fé em seu potencial, mesmo que tivesse que abrir mão de quase tudo.
Os estrelas estavam reunidos na mesa de sempre e Renan tagarelava sobre a novata de cabelos ruivos enquanto Fernanda se remexia na cadeira, claramente incomodada. Ela não era a única, Ana Clara encarava Pedro com o nariz empinado e lábios muito contraídos, como se tentasse se manter em silêncio diante de uma corte.
Pedro respirou fundo, quantas vezes teve que aguentar as crises doentias de ciúmes dela nos últimos meses? Ele já tinha perdido a conta, assim como não sabia quando havia sido a última vez que realmente conversaram sobre algo que não fosse o colégio ou a empresa de seu pai. Se é que alguma vez chegaram a conversar sobre outra coisa.
Ele só se lembrava de trocar algumas poucas palavras antes de se agarrarem pelos cantos e, até isso, parecia cada vez mais distante. Como eles haviam acabado juntos, para começo de conversa? Pedro suspirou, bem que queria ser mais como Brás Cubas.
— Ei, o que foi? — Matheus se inclinou em sua direção, mas ele não precisou dizer nada, bastou indicar Ana com a cabeça — Ah, cara, daqui a pouco ela esquece…
— Mas eu não… — Pedro retirou-se da mesa bruscamente e Matheus foi logo atrás dele. Navarro parecia ser o único ali que realmente percebeu a movimentação e continuou atento aos dois.
— O que quer dizer com isso? — Matheus disse num sussurro.
— Cansei, cara… A gente não tem nada a ver juntos, acho que nunca teve — Pedro lavou o prato apressado, não queria continuar naquele lugar sufocante.
— Oloco — ele se ancorou na pedra molhada — Vocês sempre se deram tão bem…
— Não! Vocês falavam que a gente se dava bem, eu só acreditei…
— O que está acontecendo? — Navarro tentou se colocar na frente deles, isolando o restante da casa.
— Pedro está viajando! Tá querendo terminar com a Ana.
— Fala baixo! — Pedro deu uma cotovelada no amigo.
— Isso é sério? — Navarro fechou a cara como se aquele fosse o maior dos insultos — O que deu em você!?
Pedro deixou os amigos para trás. Eles não conseguiam entender e nunca nem tentaram, sempre esperavam que ele fosse… um estrela. E no começo, era isso que ele esperava ser também, tanto que não foi difícil ser notado e em poucos meses estava entre eles. Com a chegada de Navarro essa ideia passou a fazer ainda mais sentido, ainda mais quando o amigo tomou o lugar de Sarah e passou a dividir o quarto com ele e Matheus. Mas agora?
— Ei, cuidado! — Gabriela espalmou a mão em seu peito, o atacando mentalmente, e ele quase pôde sentir a força de seu tapa.
Pedro desviou sem dizer nada, seguindo a passos pesados para a escada e, ao colocar o pé no primeiro degrau, olhou para trás. Bruna também tinha virado e seus olhares se encontraram por alguns segundos, havia certo conforto no sorriso tímido dela e ele não pôde deixar de sorrir também.
Matheus o alcançou praticamente na porta do quarto, mas Navarro não estava com ele. As mãos nos bolsos da bermuda eram um sinal de que estava arrependido, conhecia Matheus a vida toda e ler seus pensamentos era mais fácil do que ler os livros antigos que colecionava. Ele não precisou dizer nada para que Pedro soubesse que sentia muito, que não queria ter dito aquilo e que, na verdade, só estava preocupado com ele. Mas será que havia motivo para preocupação? Ele suspirou e Matheus concordou com a cabeça.
— Estamos bem? — o jogador estendeu a mão para ele.
— Sempre estamos — Pedro retribuiu e o cumprimento ecoou pelo corredor.
Matheus ainda o puxou para um abraço e o arrastou escada abaixo, onde os estrelas estavam reunidos na sala de estudos. Eram os últimos minutos antes do fim do almoço.
Um por um, os alunos entraram no espaço confinado da sala de aula, os pixotes estavam inquietos, trocando olhares preocupados e respirações ruidosas. Dessa vez, Cíntia estava lá na frente, na mesa adjacente de Fernanda, batendo com os dedos na carteira no mesmo ritmo de sempre. Nicolas ainda não estava na sala, mas, mesmo assim, o silêncio era absoluto.
André e Renan se encaravam, um em cada canto da sala, travando uma batalha silenciosa, uma disputa de monarcas com suas amazonas dispostas a duelar até a morte. E, quando o professor entrou na sala, o clima ficou ainda mais tenso. Ana Clara pousou a mão na de Pedro, sem tirar os olhos dos pixotes, a apertando suavemente para abafar o nervosismo. O show estava prestes a começar.
Nicolas abriu a pasta que sempre trazia consigo e tirou o questionário recém impresso, o cheiro de tinta se espalhou rapidamente e, se pudesse pegar aquele pedaço de papel, tinha certeza que ainda estaria quente.
Fernanda se ajeitou na cadeira, ou seja, o que fosse que ela estivesse fazendo, diferente de Cíntia que permanecia imóvel, observando algum ponto distante da lousa, algo que Pedro não estava vendo. Os olhos dele percorreram a parede de uma ponta a outra, porém, não havia nada. Chegou a procurar entre os pixotes, mas só encontrou o olhar de Bruna sobre ele.
Ela não disfarçou ou desviou e, sim, sorriu, um movimento discreto, tímido e quase imperceptível que o fez se remexer na cadeira. Havia uma certa curiosidade na forma como ela o encarava e, quando Pedro percebeu, tinha puxado a mão para longe da de Ana.
A novata devia pensar que ele era um idiota e ele realmente estava agindo como um. Era melhor dar um basta na situação quanto antes.
— Para os que estão chegando agora — Mais uma vez Nicolas ancorou-se na mesa dos professores — Responde quem levantar a mão primeiro… Se acertar, o grupo ganha um ponto, mas se errarem… Perdem dois.
Assim como Renata, Nicolas não conseguiu assustar os novatos, o que o surpreendeu também. Então, ele ajeitou o questionário na altura dos olhos, observou a turma uma última vez e começou.
— Na obra “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, é feita uma crítica social de forma muito marcante para o movimento da época… Qual foi o recurso utilizado?
A tensão na classe era tanta que eles quase podiam ver as faíscas passando entre eles. E Fernanda levantou a mão primeiro, antes que a ruiva, se quer, erguesse os olhos.
— Foi com a descrição super detalhada do ambiente e das condições dos personagens, demonstrando de forma praticamente visual as desigualdades sociais.
— Correto, ponto para os estrelas — Nicolas tentou disfarçar o sorriso — Próxima pergunta, em “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, o uso de metáforas serve para quê?
Mais uma vez, silêncio, ninguém ousava respirar durante aqueles preciosos segundos. E, quando Pedro virou-se para Cíntia, a viu encarar a lousa enquanto batia os dedos sobre a mesa com pequenos intervalos de tempo. Seria algum tipo de estratégia?
— Para representar os conflitos existenciais e o cenário árido do sertão — Pedro nem tinha visto Fernanda erguer a mão e, provavelmente, a ruiva também não.
— Excelente! Estrelas na frente com dois pontos — Nicolas olhou curioso para Cíntia, imóvel encarando o horizonte, e depois para André, que afundava cada vez mais na cadeira — Terceira pergunta: qual a técnica empregada na obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, que explora a perspectiva dos personagens e cria uma atmosfera de isolamento e desespero?
Pedro viu a ruiva fazer de novo, visualizou algo para além da lousa a sua frente e começou as batidas. Uma… Duas… Três… Porém, na quarta, ela ergueu a mão antes de Fernanda.
— Não é possível… — Pedro sussurrou para si mesmo.
— Técnica de focalização — ela ergueu finalmente os olhos para o professor, que parecia tão surpreso quanto os estrelas.
— Ahn… Correto, ponto para os pixotes…
André respirou aliviado, Sarah sorriu de orelha a orelha e foi a vez de Renan e Fernanda ficarem tensos.
— Vamos para a próxima… Em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, a linguagem é descritiva e objetiva com qual intuito?
Cíntia começou com as batidas quase imperceptíveis novamente. Um… Dois… Três… Quatro.
— Para mostrar as disputas sociais e políticas que envolviam nossa formação nacional — ela ergueu a mão tão rápido que Fernanda piscou atônita.
— Muito bem… Parece que os pixotes e os estrelas estão empatados — a turma inteira parecia na ponta da cadeira assistindo a um final de campeonato — Essa é a última pergunta: como Machado de Assis desconstrói as conversões de romance realista?
Fernanda fitou o chão, apertando as próprias bochechas, era a primeira vez que ficava nervosa daquele jeito, como se Pedro pudesse ouvir o coração dela pulando pesado no peito. André e Renan trocavam olhares raivosos enquanto se agarravam às cadeiras com todas as forças. Sarah escondeu o rosto atrás do pau-mandado dela e a namorada dele não parecia nada feliz.
Já Cíntia, como esperado, olhava fixamente para a lousa, batendo com os dedos na mesa. Um… Aquilo não poderia ser coincidência… Dois… Só podia ser… Três… Pedro arregalou os olhos. Ela estava contando o tempo! Quatro… Cíntia ergueu a mão.
Se acertasse, os pixotes levariam a vitória pela primeira vez desde que Fernanda se tornou estrela e Pedro podia ver o medo brilhando nos olhos dela, podia senti-lo pela respiração pesada de todos, até que, finalmente, o professor quebrou o silêncio.
— Pedro, você ergueu a mão primeiro…
De repente, todos os olhares se viraram para ele como canhões, alguns da frota inimiga prontos para destruí-lo, e outros dos aliados, que variavam entre suporte e descrença. Ele sentiu a mão de Ana tocar-lhe o ombro, ela parecia tão preocupada quanto os outros, quase como se implorasse em silêncio para que não respondesse. Renan era o único que o encarava sem tensão e, com um aceno de cabeça, confiou em Pedro para ir em frente.
— Ele… Desconstrói o romance realista com a narrativa irônica e inovadora para a época, usando um eu lírico morto e moralmente questionável.
— Está correto… — uma parte dos alunos respirou aliviada e, até Nicolas, parecia mais relaxado — São três pontos para os estrelas contra dois dos pixotes.
Os gritos e aplausos dos ganhadores preencheu o silêncio e o professor declarou a turma dispensada. Na saída, Pedro recebeu tapinhas nas costas, Matheus e Navarro usavam seu nome para aterrorizar os pixotes e até Fernanda veio cumprimentá-lo com um sorriso no rosto, agradecendo por salvar a partida.
— Muito bom, Pedro — Renan se aproximou ajeitando o cabelo — Foi arriscado, mas sabia que se sairia bem…
— Ahn… obrigado?
— Ah, você foi incrível! — Ana se agarrou ao seu braço como uma serpente asfixiando a presa — Não acredito que conseguiu responder tão rápido…
Nesse momento, as pernas de Pedro pararam de se mexer e Ana trombou nele, quase caindo com o impacto.
Talvez houvesse outra maneira de fazer aquilo, quase certeza de que havia, mas Pedro não conseguiu se conter, não aguentava mais carregar aquela angústia no peito. Não lembrava exatamente do que tinha dito, somente da expressão no rosto de Ana Clara que variava entre choque, dúvida e… raiva. Nada de tristeza, nem uma pontinha dela, e isso valia para ambos os lados. Ele não se lembrava de ter entrado na casa, ou de ter subido as escadas, porém, Pedro estava parado em frente à porta do quarto. Dava para ouvir os amigos rindo e se xingando do outro lado, mas ele não conseguia se mexer. Apenas ficou encarando a tinta branca, os remendos que fizeram no ano passado ainda eram visíveis, um pequeno relevo aqui e ali onde Matheus bateu “acidentalmente” o taco de bets e arranhou boa parte da porta. A coordenadora nunca brigou tanto com eles e, embora a culpa não tenha sido de Pedro, ele jamais diria isso em voz alta.
Estava sempre acobertando aqueles dois, mesmo quando avisava das consequências das coisas que faziam, quase como se aquele fosse o trabalho dele no final das contas e, talvez, devia ser mesmo. Porém, o trio terrível deixaria de existir depois que Matheus fosse embora e aquilo lhe apertou forte o peito. De repente, abriu a porta com mais força do que gostaria, cansado de sentir pena de si mesmo.
Seus amigos lhe olharam por alguns instantes e voltaram a conversar sobre qualquer outra coisa. Por um minuto, ele se sentiu um idiota e se jogou na cama, rezando para que pudesse passar o resto do dia nela, se deixando afundar no colchão à deriva em sua própria culpa. Odiava ter que comparecer a mais um período de literatura e ter que encarar Ana Clara depois de tudo.
— Você está com uma cara péssima! — Matheus jogou a bolinha anti-estresse em Pedro — O que aconteceu?
— Eu… — ele respirou fundo, não tinha porque esconder deles, mas as palavras pareciam entaladas em seu peito — terminei… Nós terminamos, eu acho…
Pedro esfregou o rosto com as mãos, a conversa deles ainda estava nebulosa em sua memória.
— Você não está falando sério… — Navarro revirou os olhos em tom de deboche e Pedro suspirou outra vez.
— Você TÁ falando sério — Matheus levantou num pulo — É por causa de outra mina?
— Quê? — o amigo se jogou ao lado de Pedro, que começou a sentir uma pontada de dor de cabeça — Lógico que não…
— Vai dizer que ela te traiu? — mais uma vez Navarro estava debochando dele.
— Qual é, cara! Isso é sério! — Matheus tacou um travesseiro na cara de Navarro.
— Ué, eu tô falando sério — ele jogou o travesseiro de volta, com mais força que o necessário.
Pedro estava pronto para deixar os dois brigando sozinhos no quarto quando o sinal do próximo período tocou, eles precisavam voltar para a classe. E, então, quando estavam praticamente ao pé da escada, ele puxou Matheus.
— Cara, troca de lugar comigo? — disse quase num sussurro enquanto garantia que Navarro não estava por perto.
— Ahn… pode ser… — dava para ver a preocupação na cara de Matheus.
Eles sentavam perto um do outro, separados por uma ou duas carteiras de diferença, o que já estava ótimo para mantê-lo longe de Ana. E, é claro, que ela não gostou nada quando viu. Matheus ficava na fileira do meio, a que eles dividiam com os pixotes e atrás dele estava Cíntia, que havia voltado para a última carteira da sala.
Navarro o encarou irritado quando Matheus sentou ao lado dele na janela, mas achou melhor deixar o sermão para depois da aula. Os pixotes também pareciam entretidos com a pequena mudança, cochichando e apontando para ele. Pelo menos, assim que o professor entrou, o assunto se encerrou, por um tempo.
Apesar de adorar ler livros clássicos e antigos, Pedro odiava ler 'sobre' eles, admirava o talento e o bom uso das palavras, mas não dava a mínima para a situação de vidas deles ou o quanto foram importantes para as escolas literárias. Então, se manter acordado nas aulas de Nicolas sempre foi um desafio e, talvez, Bruna tenha percebido.
Ele estava lutando para manter os olhos abertos quando a viu disfarçar a risada com a mão. Estava mais preocupada em esconder do professor do que dele, para falar a verdade, o que fez Pedro segurar o riso também. Gostava disso nela, era como se ela estivesse confortável na própria pele, sem se importar com que os outros pensavam. Então, Navarro chamou sua atenção tempo o suficiente para ver Ana Clara revirando os olhos para ele e Bruna… Mais um de seus dramas. O sorriso sumiu do rosto de Pedro e ele suspirou, deixando o corpo afundar na cadeira. No final do período ainda teve a infelicidade de vê-la esbarrar em Bruna de propósito antes de sair da sala.
— Perdeu o juízo, gata? — Gabriela se colocou entre elas
— O que foi? Precisa da cachorrinha oxigenada pra te defender?
Bruna segurou Gabi com mais força.
— Vamos, Ana, chega disso… — Pedro praticamente a escoltou para fora da sala.
— Agora você é defensor dos pixotes, amorzinho? — ela tentou tocar em seu rosto, mas ele desviou. Pedro não sabia se o calor que estava sentindo ali fora era por causa do sol escaldante ou por estar sendo observado pelos colegas que passavam a caminho da casa.
— Não tem nada a ver…
— Então já está com saudade de mim? — Ana jogou os braços ao redor do seu pescoço, aproximando o nariz do dele.
Os colegas cochichavam enquanto passavam e um formigamento estranho tomou conta de seu peito. Rapidamente, Pedro se afastou de Ana Clara como quem foge da medusa e foi até a garagem. A dor de cabeça havia voltado e a última coisa que queria era ficar no meio de todo mundo. Preferia ficar ali sentindo os últimos raios de claridade tocando suas pernas enquanto uma brisa fresca vinha do campinho e soprava seus cabelos de um lado para o outro.
O sol estava se pondo atrás do prédio principal, que, de onde ele estava, parecia uma caixinha de sapato ao invés de um grande bloco de concreto com dois andares. O céu alaranjado ia ganhando tons de violeta, rosa e azul à medida que a luz ia baixando e, diferente de onde seu pai morava, ali dava para ver as estrelas brilhando forte na parte mais escura e timidamente onde ainda tinha luz. Era um dos momentos mais bonitos do dia.
— O que você está fazendo aqui fora, cara? — a voz de Navarro o fez se encolher ainda mais no chão — A galera tá te esperando pra jogar…
— Não to afim… Põe outro no meu lugar
— O que tem errado com você? Está esquisito desde que a gente voltou das férias…
— Me deixa em paz, Navarro…
Navarro abriu a boca para discutir, mas ao invés disso, bufou e voltou para dentro. Que ficasse sozinho, ele não se importava! Uma hora ele teria que entrar de qualquer jeito, disso tinha certeza.
E, quando as costas de Pedro começaram a doer, ele se levantou relutante, não queria ter que lidar com os amigos naquele momento, principalmente Navarro, que, claramente, estava de marcação com ele. Mas era isso ou ser devorado por pernilongos ali fora. No entanto, assim que colocou os pés na sala de estar, deu de encontro com Bruna. Ela sorriu imediatamente e o rapaz deu um passo para trás.
— Estava te procurando — talvez a cara dele transmitisse a confusão em sua cabeça, porque ela continuou — Queria te devolver isso…
Ela lhe entregou o livro mais antigo de sua coleção e, por um instante, ele duvidou que fosse mesmo dele. Mas reconhecia aquela capa esfarelando em qualquer lugar, o que o deixou levemente constrangido.
— Você esqueceu aqui, eu acho… Eu acabei dando uma olhadinha nele, espero que não se importe — ele engoliu em seco, havia muitas anotações naquele livro, talvez até demais — Eu… nunca tinha lido.
— Sério? — aquilo realmente o pegou de surpresa.
— É… — foi a vez dela ficar constrangida — Já tinha ouvido sobre a estória, mas nunca tive tempo pra ler, pra falar a verdade.
— E o que achou?
— Ahn… Eu… Não cheguei a terminar — ela sorriu um pouco sem graça e Pedro não conseguiu conter o riso.
— Aqui, pode terminar… Depois me fala o que achou.
Bruna apertou o livro contra o peito, sentindo as bochechas queimarem ao tentar conter o sorriso que se formou em seus lábios. Ela fazia as coisas parecerem fáceis e era isso que Pedro queria para ele, não ter que planejar e calcular cada palavra e cada passo que dava em sua vida.
— O que foi? — ela o observou por alguns segundos e, de repente, Pedro se sentiu nu diante dela.
O frio na barriga foi tanto, que ele queria correr para o quarto, para o mais longe da vista dela, mas só conseguiu suspirar e se deixar cair no sofá. Era como se carregasse um peso tão grande que não aguentasse mais ficar de pé nem um minuto.
— Não é nada…
— Não está com cara de ser nada — ela sentou ao seu lado, mantendo o livro firme em seu colo.
As palavras roçavam a garganta de Pedro, procurando um caminho para escapar e, a cada segundo que passava encarando aquele olhar preocupado por trás dos cílios grossos, mais ele se sentia fraco e prestes a desabar. Então, Bruna segurou suas mãos de um jeito tão cuidadoso e delicado, que as palavras simplesmente começaram a sair como uma torneira aberta.
— Eu não quero chatear ninguém…
— E por que chatearia? — a mão dela estava firme na dele, como uma boia salva-vidas o mantendo acima da água.
— Porque… — Pedro tentou se afastar, mas ela não deixou, e, de repente, o aperto em seu peito finalmente pareceu afrouxar — Eu não estou sendo um estrela… Não mais.
— Você parece um estrela pra mim… Um pouco menos arrogante, eu acho — Bruna conseguiu arrancar um pequeno sorriso dele e ela sorriu de volta.
— Eu não tenho tanta certeza… — ele suspirou, sustentando o olhar dela.
— Pedro, os estrelas só ganharam hoje por sua causa… Isso não faz de você um estrela?
— Ah, Bruna — desta vez foi ele que apertou a mão dela — Não é tão simples…
— Me explica — a voz mal saiu pelos lábios dela e Pedro acompanhou o movimento sem fôlego.
— Sabe quando alguém fala que você é bom numa coisa e, de repente, todo mundo espera isso de você? Como se fosse a única coisa que você pudesse ser — Bruna desviou o olhar, mas concordou com a cabeça, tão discretamente que poderia passar despercebido por outra pessoa — Mas, e se você quisesse ser outra coisa e isso chateasse as pessoas?
— E daí? Você não tem que agradar às pessoas, Pedro, você tem que fazer o que te deixa feliz.
— Mas… — Bruna puxou as mãos dele para perto dela e ele engoliu em seco.
— Você não precisa que os outros aprovem suas decisões… É a sua vida.
Pedro queria abraçá-la, mas seu corpo inteiro parecia anestesiado e tudo o que conseguiu foi concordar com a cabeça. O peso que esmagava seu peito ficou mais leve e o ar fluiu tão rápido para seus pulmões que quase o afogou.
Então, finalmente, Bruna o abraçou e Matheus, que estava ouvindo atrás da porta, sentiu as pernas bambearem e um nó se formar em sua garganta. As malas já estavam prontas e, mais cedo ou mais tarde, o motorista estaria à sua porta. Não tinha mais como voltar atrás, não importava o quanto aquelas palavras soassem bonitas e aquilo o estava sufocando.
O atleta lutou para subir cada degrau e se jogou entre as cobertas, ignorando o calor ao redor do corpo. Ele pegou o celular e digitou o único número que sabia de cabeça, agonizando a cada toque de espera, até que ouviu a voz do outro lado da linha.
— Alô?
— Mãe? — ele se esforçou para afastar a voz embargada
— Meu filho, que bom que você ligou! Adivinha? Consegui a semana de folga! — ela estava tão animada que Matheus sentiu a garganta fechar — Falei com seu pai e também estarei no aeroporto te esperando! Não é incrível?
— É sim… Incrível — Matheus queria chorar, era a primeira vez que seus pais estariam sob o mesmo teto desde que tinha seis anos.
— Mas o que você queria me falar, meu filho?
— Nada! — ele esfregou o rosto com a mão livre — Só que… Eu ainda tô esperando.
— Não se preocupe! Já, já o motorista está aí…
Os olhos de Matheus chegaram a queimar, mas ele engoliu o medo e a angústia de uma só vez. Ele não seria fraco, seria o melhor jogador de futebol do mundo, disso tinha certeza. Ou, pelo menos, esperava que fosse.
O aperto em seu peito ficou ainda mais sufocante quando Pedro entrou no quarto. Ele não entendia o que Matheus estava passando, sempre foi fácil para ele agradar às pessoas. Não se passaram nem dois dias e a novata já estava interessada nele, assim como todas as garotas que conheciam. Até Priscila o teria escolhido se Ana Clara não tivesse sido mais rápida.
Era fácil gostar de Pedro, ele mesmo gostava, mas, às vezes, era muito difícil ficar na sombra dele. Nisso, o único que o entendia era Navarro, que mesmo se esforçando tanto, ainda ficava para trás.
A principal diferença entre eles dois era que Matheus já havia desistido dos holofotes há muito tempo e se acostumou com o segundo lugar. Mas, dessa vez, ele não podia, havia gente demais contando com ele, com o sucesso dele. Como poderia olhar sua mãe nos olhos se desistisse? Ela que investiu tudo nele, dinheiro, tempo, amor… Enfrentou até o ex-marido para garantir que Matheus pudesse se dedicar ao esporte. Como ele trairia essa confiança?
— Tá tudo bem, cara? — Pedro estava parado na porta do banheiro.
Sem responder, Matheus saiu do quarto como um furacão, ignorando Navarro, que o chamou para jogar sinuca com os estrelas.
— O que está acontecendo com esses idiotas?
— Como assim? — Renan, o presidente da turma, deu a primeira tacada.
— Você não percebeu que eles estão estranhos? — Navarro usou o taco como apoio.
— Estranhos, eles sempre foram… — outra tacada perfeita, estava duas bolas na frente.
— Se eles são estranhos, aquele Pitbull oxigenado é o quê? — Ana Clara riu.
A garota estava deitada no sofá com as penas no colo de Priscila, que parecia mais entretida com seus esmaltes do que com a conversa.
— Aquela garota é problemática — Navarro revirou os olhos.
— Você viu o jeito que ela veio pra cima de mim? — Ana se sentou para encará-lo — Parecia um gorila selvagem!
— Eu tinha certeza que ela ia te bater — Renan encaçapou mais uma.
— Eu não ia deixar isso acontecer… — Navarro piscou para Ana Clara, percebendo uma covinha se formar no canto dos lábios.
Apesar do quarto estar igual, não parecia mais o mesmo. Sua gaveta de relógios ainda estava ao lado da cama, assim como a estante de livros de Pedro continuava atrás da porta. Porém, a prateleira de medalhas e outras tralhas de Matheus não estavam mais ali. Era como se alguém tivesse passado uma borracha no amigo deles e qualquer vestígio dele desapareceu daquele cômodo, com exceção da única foto que eles tinham pendurado junto aos pôsteres de filmes e músicas que colecionavam.
Pedro, como sempre, estava deitado na cama com um dos livros caindo aos pedaços, como se nem tivesse percebido a presença dele. Navarro suspirou um pouco alto demais e o amigo ergueu o olhar em silêncio.
— Que foi? Perdeu alguma coisa na minha cara? — Pedro simplesmente retomou a leitura e Navarro cerrou os punhos. Tinha vontade de acertá-lo com aqueles malditos livros — Vai fingir que eu não tô aqui?
— O que você quer, Navarro? — ele apoiou o livro no colo.
— Que as coisas voltem ao normal!
— Sinto muito… — Pedro estava prestes a voltar a ler quando Navarro arrancou o livro de suas mãos.
— Dá pra me escutar!?
— Não, Navarro! Não dá! — Pedro se levantou, ficando cara a cara com o amigo — Você ainda não entendeu? Nada vai voltar a ser como antes, o Matheus vai embora e eu… Não quero continuar com isso…
— Continuar com o quê? Sendo um estrela?
— Sendo um fantoche!
De repente, o silêncio inundou o quarto. Navarro nunca tinha visto Pedro se exaltar daquele jeito com ninguém e aquilo o assustou.
— Do que está falando? — dessa vez sua voz saiu tímida, quase inaudível.
— Esquece — os ombros dele relaxaram, mas aquilo não acalmou Navarro.
— Mas que droga! Me fala o que está acontecendo! — ele não deixou Pedro virar as costas — É por causa da Ana?
— É por causa de todo mundo!
Pedro esperava que o amigo fosse embora e o deixasse sozinho, embora uma parte dele tivesse medo disso. Porém, Navarro deu dois passos para frente e colocou a mão pesada em seu ombro, não havia julgamento em seu rosto, apenas dor.
Ele queria poder voltar atrás no que disse, mas estaria mentindo para o amigo e para si mesmo. Era difícil não culpá-lo por ter que carregar aquela imagem perfeita o tempo todo, no entanto, estaria sendo injusto em jogar tudo em cima dele. Navarro era só mais uma gota num balde prestes a transbordar e, agora, Pedro estava disposto a deixar a água correr.
Não dava mais para se esconder naquela sala. Eram quase oito horas da noite e o motorista chegaria a qualquer momento, porém, ele não conseguia voltar. A luz da lua disputava o espaço com as luzes que vinham de dentro da casa, um lembrete do que o esperava no lado de dentro e o que teria que deixar para trás no momento em que o carro estacionasse na calçada.
— Esqueci de pegar a mala, droga!
Ele deixou o corpo escorregar ainda mais para aquele chão gelado, a cabeça ainda estava apoiada na parede e agora o queixo estava a poucos centímetros do próprio peito. Ele não queria entrar. Quantas vezes ele tinha sonhado com aquele momento?
Quando parava para pensar, percebia que havia poucas. Se lembrava de ter sonhado acordado em uma das ceias de Natal da família, a única que não terminou em briga. Seu avô estava empolgado com a proposta que tinha recebido de um olheiro, seus tios não cansavam de dizer como ele seria um sucesso e até seus primos pareciam impressionados depois de assistir ao jogo. De repente, as luzes se acenderam e o clarão o cegou por alguns segundos.
— O que está fazendo no escuro, Matheus?
— Renata? — ele se levantou num pulo — Por que está aqui?
— Sua carona chegou — ela tentou sorrir — E… eu queria te desejar boa sorte. Você tem um grande potencial, garoto, não se esqueça disso.
Renata pousou a mão em seu ombro, dando-lhe um aperto firme como sempre fazia, o último que receberia dela. Então, Matheus respirou fundo, precisava de toda força que restava para fazer as pernas funcionarem antes que as teimosas lágrimas finalmente escapassem.
Dona Helena, a inspetora e coordenadora da casa que foi sua segunda mãe por tanto tempo, os encontrou no corredor. Já havia mandado descer suas malas e tinha um terrível sorriso orgulhoso nos lábios. Era a hora.
Matheus odiava sair daquele jeito, mas se olhasse para trás agora, não conseguiria partir. O que ele não imaginava era ver todo mundo esperando por ele na calçada, até os pixotes estavam lá para lhe dar o último aperto de mão. E, um por um, ele foi se despedindo.
Então, chegou a vez deles, seus colegas de quarto, seus amigos, seus irmãos…
Ele sentiu as pernas fraquejarem, mas Navarro o firmou num abraço, estava orgulhoso dele, como um irmão de verdade. Depois Pedro se aproximou para cumprimentá-lo com a mão estendida no ar, igual a um velho. Sentiria falta dele, não tinha dúvida, por isso, Matheus o puxou para um abraço apertado, não conhecia uma vida sem ele.
— Se cuida, tá? — a voz de Pedro saiu trêmula.
— Você também — foi tudo o que conseguiu dizer.
— E não esquece, aqui sempre vai ser sua casa.
Pedro estendeu a mão com a palma virada para cima e Matheus, automaticamente, levou sua mão na direção da dele, permitindo que o estalo falasse por eles. Tinha lágrimas nos olhos quando entrou no carro e seu coração parecia a ponto de explodir.
Pouco a pouco, a casa foi ficando para trás até desaparecer no horizonte e eles mergulharem na estrada à luz das estrelas.
— E agora? — Pedro ainda estava parado na calçada, mesmo depois de todos entrarem.
— Agora seguimos em frente… — Navarro colocou a mão em seu ombro e o guiou de volta para a casa. O ano estava apenas começando.






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