O governo Bolsonaro destruiu a minha carreira no cinema brasileiro. Essa é só uma das razões para eu votar 13 no próximo domingo, mas eu quero contar a minha história, mesmo que, diante de todas as tragédias que aquele governo causou, ela seja pequena.
Arte.
Todo mundo que trabalha com arte sabe o quão frustrante pode ser o processo de desenvolvimento de um projeto artístico no Brasil. Você muito provavelmente vai precisar de incentivo governamental, vai navegar um mar de burocracias e no fim talvez não dê certo. Eu passei por isso algumas vezes durante a minha carreira como roteirista no Brasil.
A indústria do cinema gera empregos e movimenta a economia de todos os países que investem nela. Os Estados Unidos, inclusive, possui um long histórico de incentivo fiscal e financiamento direto no seu setor de cultura e entretenimento, com o exército sendo um dos principais financiadores. Eu não estou dizendo que acho que o exército brasileiro deveria financiar filmes, longe disso. Mas quero mostrar que até o governo da maior potência capitalista do mundo sabe que financiar cultura é bom para o país.
Vai muito além de soft power, a indústria da cultura e entretenimento gera muito emprego e lucro para o país. Não é só a campanha do Oscar que move as engrenagens. Para aquele filme chegar no Oscar ele empregou desde os atores e diretores, ao motorista da van que leva a alimentação pros sets de filmagens, o auxiliar de cozinha que trabalha pro catering, o assistende de produção e de arte, etc. E o dinheiro investido nos filmes, séries, exposições, editais e bolsas retornam para o país tanto como bem financeiro, como capital cultural.
Arte como um todo é necessidade de bem social.
E essa é uma das razões pelas quais eu, como artista, escritora, ilustradora e roteirista que fui jamais votaria em ninguém da família Bolsonaro ou da extrema-direita.
Minha história.
Eu cresci dentro de uma família que flutuou entre a classe média e a classe média alta e sempre tive muita sorte de ter o apoio tanto emocional quanto financeiro dos meus pais enquanto perseguia o meu sonho profissional. Eu me formei em Cinema em São Paulo, eu tinha bolsa na faculdade, mas nunca passei nenhum tipo de dificuldade. Como falei, eu tive uma vida muito confortável durante boa parte da minha vida adulta. Eu sou eternamente grata à minha família por isso.
Alguns anos depois de me formar eu fui estudar fora, mas decidi retornar pois eu queria trabalhar e morar no Brasil. No meu país eu sabia que ia ter mais chances de tentar fazer os meus projetos acontecerem.
Foram cinco anos em que pude me dedicar a um projeto de longa-metragem meu, do meu companheiro e de mais um amigo. O projeto era audacioso, um filme de ação com personagens jovens e voltado para o público que, naquela época entre 2014 e 2019, era a menina dos olhos de todos os investidores culturais e qualquer pessoa que quisesse fazer dinheiro: o público jovem e nerd.
Eu tenho muito, muito orgulho desse projeto. Todo mundo que lia o nosso roteiro e via o nosso projeto adorava, ele recebeu nota alta em editais e era realmente um projeto feito de amor pelo cinema, pelos games, pelo jornalismo, pelos quadrinhos. Um filme que não era de baixo orçamento mas que seria algo novo para o momento da cultura nacional com diversas possibilidades de retorno financeiro e os investidores reconheciam isso.
Nós fechamos contrato com uma produtora relativamente pequena de São Paulo, que acreditou na nossa visão e embarcou de cabeça com a gente no projeto. Depois de alguns percalsos, a maior distribuidora de filmes nacional assinou com o nosso filme. Logo em seguida nós apresentamos o projeto para a maior produtora de cinema e televisão nacional e ela não só queria investir, como um dos seus grandes diretores se interessou em participar do projeto. Eu, que não tinha família no entretenimento, que tinha saído do Espírito Santo sem nenhum contato no meio, tava muito perto da realização de um sonho. Aliás, nenhum de nós eramos nomes conhecidos ou tinhamos família nessa área.
No meio disso tudo aconteceu o impeachment contra a Dilma, o Temer assumiu e começaram os cortes no Ministério da Cultura e na Ancine. Quando o Bolsonaro foi eleito jogaram uma pá de cal na Ancine e o Ministério virou secretaria sob o domínio de uma política de austeridade, doutrinamento político e perseguição.
Tem um termo utilizado para o tempo que um projeto fica procurando investimento até ele finalmente acontecer: production hell. Mas esse inferno, no nosso caso, era proposital. Enquanto a maior investidora perguntava quando a gente ia começar a fazer o filme acontecer, a distribuidora, que era também coprodutora do filme, nos deixava no silêncio. Ficamos sabendo depois que o nosso filme foi posto de lado em prol de um outro filme de ação, que promovia a narrativa hiperviolenta e miliciana do governo, e cujo bonequinho adornava a mesa de um dos secretários da cultura. Mas esse não foi o nosso único projeto cancelado, e nós não fomos os únicos; muitos outros projetos foram paralisados durante o governo do Bolsonaro porque não se alinhavam politicamente com o que eles queriam.
O nosso projeto, e tantos outros, foram enterrados na canetada tanto de um governo de extrema direita como de um empresário que queria agradar o governo da época. É hilário escutar a extrema-direita falar de censura enquanto fazem um filme por baixo dos panos que nem o Dark Horse, enquanto tantos projetos culturais sofreram na mão de um governo burro e mal intencionado como o do Bolsonaro, que desmontou a indústria cultural brasileiro para satisfazer um visão autoritária e fascista.
Ou seja.
Olha, eu tenho críticas ao modo como os editais de cinema funcionam no país. Lembra o edital que eu falei lá em cima? Meu roteiro recebeu nota alta, mas como eu ainda não tinha feito nenhum longa-metragem, meu currículo não tinha peso. O meu trabalho tava ótimo, mas o meu currículo não favorecia. Não faz sentido nenhum, mas eu entendo que editais são complicados e cheios de regras.
Editais precisam acontecer porque cultura não é só investimento financeiro, é investir no bem-estar social, expandir a cultura brasileira, descobrir novos caminhos e incentivar crianças e adultos a verem mais longe, a quererem mais. Arte que só é financiada quando existe um fim comercial lucrativo não é arte, é produto (e olha que eu acredito sim que filme de super-herói pode ser arte). Um país que não incentiva a cultura é um país sem futuro.
Eu sei que parece pequeno falar da interrupção da minha e de muitas outras carreiras artísticas quando os quatro anos do governo Bolsonaro aumentaram a fome e a miséria no Brasil, causaram o genocídio Yanomami e isso sem falar nos crimes ocorridos durante a pandemia ou em todas as vidas que se perderam por inação do governo. Por causa de tudo isso eu não tinha falado abertamente sobre o assunto deste post.
Mas agora que eu nem trabalho mais com cinema nem moro no Brasil, e tão perto de eleições tão decisivas para a democracia nacional, eu resolvi deixar essa uma razão mais pessoal pela qual eu jamais votaria em qualquer um dos Bolsonaros ou em qualquer político de extrema-direita.
Caso não tenha ficado óbvio até agora: eu vou votar no Lula no domingo com a certeza de que essa frustração tão específica pela qual eu passei, e que me afundou numa depressão contra a qual eu luto até hoje, nenhuma outra jovem sonhadora como eu vai passar. Politicagem existe em qualquer lugar, a gente sabe disso. Mas se ela é resultado de um governo que suprime a manifestação cultural de um povo, ela tem outro nome.
Até mais!
PS: O próximo texto vai ser mais leve, eu espero.




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