A ficção é um constante olhar novo sobre um velho mundo, uma especulação sobre o potencial de tudo enquanto signo.
Meu primeiro contato com Semiótica foi em 2005.
Não, minto, o contato com a semiótica teórica. Já ver o mundo sob a ótica dos signos é algo que me acompanha desde sempre. Desde quando imaginava mundos no quintal de minha avó, ainda criança.
Vejam bem, a ficção é um constante olhar novo sobre um velho mundo, uma especulação sobre o potencial de tudo enquanto signo. Por isso é um exercício semiótico constante, de olhar para algo agora e ter acesso a tudo o que aquilo pode se tornar, diante de alguém que extrapolou sua representação.
Representações. Mas não quero me adiantar.
Esse é um texto sobre meu amor pela Semiótica Peirciana a qual, embora eu tenha começado a estudar em 2005, ainda arranho apenas a superfície desse método, lógica, ciência profunda a qual, mesmo que você não entenda ou, caso seja um estudante de comunicação talvez já esteja saturado de tentar entender, impacta e move sua caminhada pelo mundo. Inevitável.
Pois tudo comunica. E para entender é preciso representar.
A coisa começa de um jeito que, como o querido professor Alexandre explicou, ainda no distante curso de Especialização em Comunicação e Processos Criativos da UTP, em 2004: “primeiro há potencial, depois conflito e então a generalização”.
Vem comigo.
Imagine algo que você vê sempre, algo que já está determinado. Generalizado. Tudo isso é símbolo, mas mesmo isso, quando entra em contato com a sua mente, busca, dentro da sua consciência, os elementos necessários para que haja entendimento da coisa observada, cheirada; escutada; sentida; pensada; imaginada; representada — de alguma forma.
Um signo.
Tudo que representa algo para alguém já foi apenas fenômeno. Algo que uma mente pode perceber, de alguma forma.
Ao perceber, vem o conflito. Depois, o acordo, a representação mais geral: uma forma compartilhável de sentido. Tudo é assim, o tempo todo.
Semioses, a interpretação e produção de sentidos que ocorre infinitamente.
Se você aguentou chegar até aqui, nesse texto, aqui embaixo um print das minhas anotações — as primeiras que fiz sobre o assunto nas aulas em 2005.

Sabe quando você está diante de algo — uma explicação, uma aula, um filme, um livro, uma ideia, uma conversa — que faz um sentido absurdo mesmo sendo a primeira vez que você entra em contato com aquilo? Foi assim comigo.
Talvez porque minha mente funcione assim, e quem sabe a sua também.
Traduzir a primeiridade é difícil. Senti-la, não. Especialmente para mentes que vivem nesse estado. Mentes que estão quase sempre em um exercício natural de sentir a qualidade de algo que entra em contato com nossa percepção e, mesmo que seja trivial, comum, diário, ainda assim é fascinante justamente por parecer que estamos vendo pela primeira vez.
Acho que isso só vai realmente ressoar em quem já viveu isso, e estou contando que você, que lê este artigo, tenha vivido ou viva isso mais ou menos constantemente.
Estar nesse estado te permite ver o mundo sob a ótica dos signos. Ressignificá-lo com relativa facilidade e, assim, talvez, trazer sentido ao que não pode ser expressado nem com o mais refinado dos códigos linguísticos ou a mais compreensível forma de linguagem.
Porque sempre que entramos em contato com algo e significamos aquilo, já não é mais o algo em si, mas sua representação depois do efeito que aquele algo teve em nós. Eu não vou entrar em conceitos mais complexos das relações triádicas. Deixei um vídeo bem leve e muito bem explicativo ali embaixo. Mas quero caminhar por essa página inicial, mero potencial de entendimento jogado aqui digitalmente, com vocês.

Primeiro o fenômeno se apresentou à consciência. Veja que eu disse consciência — você se tornou ciente de algo. Algo que poderia ter passado completamente despercebido.
E isso mudou absolutamente tudo. A sua mente busca o sentido. E cada mente — toda e cada uma — vai ter um filtro ali. Um filtro tão complexo que mesmo quando o fenômeno agora é interpretado pela consciência, generalizado de maneira que todos possam entendê-lo, e ainda assim, inacessível fora de quem percebeu. Então entramos todos em acordo mas cada um terá sua própria percepção daquele objeto que afetou o mundo em volta.
O interpretante é esse efeito, que torna cada fenômeno único para alguém, embora seu representamen o torne aceitável por todos.
Dá uma virada na mente pensar nisso. Nunca conseguimos chegar no fenômeno puro de fato, é sempre e totalmente uma representação sujeita ao questionamento, transformação e mudança conforme mais e mais gente entre em contato com ela.
É isso que torna o método científico possível.
Possibilidade, choque, generalização. Ad infinitum.
Lembro da gente na sala de aula do Prof. Alexandre olhando tudo aquilo assustados e alguns, como eu, fascinados. Muito aconteceu depois. Pessoas como a pesquisadora Regina Camillo, semioticista e fonaudióloga, que hoje é uma grande amiga, me ajudaram a entrar ainda mais fundo na toca do coelho e perceber que quando mais você lê Peirce mais o caminho é sem volta para sua percepção de mundo.
E que sorte termos no Brasil também a professora Santaella, porta-voz textual dos mais de 9 mil manuscritos de Charles Sanders Peirce, com seus livros incríveis sobre o universo dos signos e suas extrapolações sempre atuais sobre os meios, as mensagens e os signos na linguagem interativa, geração após geração.
Depois de sair da toca do coelho eu passei a entender porque amo tanto ficção: por que ela é o potencial do real.
Como disse lá no início, a ficção é um exercício semiótico constante: olhar para algo agora e acessar tudo o que aquilo pode se tornar.
Em 2009 eu comecei a escrever um conto pensando nisso. Era sobre um rapaz que olhava para um quadro e, por ter assistido uma aula de Semiótica, quis fazer um exercício de primeiridade: olhar para um quadro comum na sua sala e apenas contemplar, sem interpretar, sem conflito. Estar. Wu Wei, Taoismo, primeiridade. E então ele acessa a representação do quadro, entra literalmente na pintura.
Não fiquei satisfeito e engavetei. Em 2012, retomei — e dali nasceu meu primeiro livro de ficção. Chamei de Beyonders. Escrevi 100 páginas e entreguei para uma amiga dar uma olhada. Ela era já escritora e revisora, a Lhaisa Andria, hoje uma das sócias da editora Lumus, no Paraná. Ela achou com um ótimo potencial, apontou muita coisa e eu peguei e tornei a engavetar. Precisava aprender muita coisa antes de publicar algo assim.
Estava ainda longe de ser um escritor, de fato.
E foi o que aconteceu. Escrevi meu primeiro livro e publiquei, em 2024, pela própria Lumus. Não era Beyonders. Era uma ficção especulativa sobre uma biotecnologia chamada HUPGrade, no Brasil de 2099. Assim nasceu Allison.
Depois um livro infantil sobre uma menina que nasceu com sinal Wi-Fi, dessa vez pela Ases da Literatura. Menina Wi-Fi, um livro que tenho um carinho enorme.
E, no meio de tudo isso, seguia produzindo SEMIONAUTAS, já não mais o antigo título Beyonders. E agora já escrito, em revisão, e com data para publicar ainda esse ano.
Acima o vídeo de apresentação da campanha de SEMIONAUTAS no Catarse. Vale conferir.
Meu próximo livro será na verdade aquele meu primeiro. Mero potencial. Um conflito constante por anos de criação. E agora concretizado. Um livro de amor pela linguagem e signos, mas que também é uma puta de uma aventura com o melhor da ficção especulativa e fantasia que eu consegui escrever, ambientado no Brasil.
É uma história de três universitários que veem suas vidas tomarem um rumo inesperado quando uma professora de Semiótica os envolve em experiências que desafiam tudo o que entendem como “realidade”. Que fala sobre o que acontece quando desvendamos os códigos que determinam o que chamamos de realidade. Mas também sobre vida, universo, identidade, amor e tudo mais que nos torna humanos, mesmo quando extrapolamos o conceito de humanidade.
E é o resultado de anos de amor por semiótica e comunicação. Em breve trarei aqui para vocês.

Prévia da capa do meu próximo livro de ficção especulativa brasileira - Semionautas.
Foi o que eu disse no início. Esse é um texto sobre meu amor pela Semiótica Peirciana que me faz caminhar pelo mundo com um olhar fascinado. Eu desejo esse olhar para você também. Um jeito de ver as coisas que te faça perceber que o mundo é uma representação insistente daquilo que decidimos fazer dele.
Escrevo porque vejo o mundo como signo. E a ficção é um espaço de experimentação onde percepção vira conflito, e conflito tenta virar algum sentido.
No fim, tudo semioses. E toda história é uma forma de testar isso.




Em Semionautas, signos, escolhas e afetos moldam a realidade, e o tempo não obedece a uma linha única. Uma ficção filosófica sobre consciência, linguagem e o ato de seguir criando sentido mesmo quando tudo parece indeterminado.