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Escrita por Flavia Saiane, membro do Tamo Junto
O livro “Capitalismo Carcerário", escrito pela pesquisadora, abolicionista penal, professora e poeta estadunidense Jackie Wang, foi lançado originalmente em 2018 mas traduzido para o português somente ao final do primeiro semestre de 2022 pela editora Igra Kniga. A edição brasileira conta com a excelente apresentação do tradutor Bruno Xavier e um não menos excelente prefácio de Juliana Borges, no qual traça importantes paralelos e problematizações acerca da situação carcerária e sua ligação umbilical com o “Estado capitalista racializado brasileiro ” e como este opera para o encarceramento em massa de jovens negros. A introdução do livro traz um robusto resumo da obra, costurando as questões que serão aprofundadas nos capítulos que seguem. Os temas que perpassam os setes ensaios são principalmente a economia da dívida, o policiamento algorítmico e a construção do jovem negro como um ser predatório, alguém cuja a culpa já é sempre presumida. A autora traz explicações econômicas, inclusive contrapondo Marx e Rosa Luxemburgo, sobre qual seria o papel da dívida no capitalismo e como a economia da dívida é construída sob bases racistas, muito embora o neoliberalismo se considere daltônico, ou seja, não “enxerga cores”, os empréstimos mais predatórios, aqueles que aprisionam o devedor, são contraídos por pessoas racializadas. Embora nos dois primeiros capítulos as questões de análise do funcionamento do sistema bancário e de dívidas se refiram aos Estados Unidos, pode-se refletir sobre como as políticas econômicas brasileiras impactam na vida das pessoas mais pobres e que são em geral pessoas racializadas. Essas políticas, tanto aqui quanto lá, geram não somente explorados como pessoas descartáveis. Outra faceta do capitalismo carcerário são os altos investimentos em dispositivos de segurança, de presídios às tecnologia usadas pela polícia para mapear áreas de risco, por exemplo. Aqui, Wang explica o policiamento preditivo, no qual a geografia substitui a raça, segundo ela “racismo biológico e cultural acabou sendo substituído pelo racismo estatístico” já que as tais áreas de risco se encontram geralmente em lugares mais pobres, onde já havia maior presença policial. Se pensarmos sobre o Brasil, o uso de tecnologia de reconhecimento facial também opera nessa lógica de tentar "neutralizar" a abordagem do policial, como se fosse algo somente técnico e, portanto, livre do olhar contaminado pelo racismo estrutural. Ao falar sobre como esses mecanismos agem sobre os jovens, Jackie Wang revela seu drama pessoal: um irmão preso aos 17 anos que fora condenado à prisão perpétua. Sua reflexão sobre como passaria o tempo na prisão e como passa o tempo para quem espera do lado de fora é extremamente tocante. Aqui, a pesquisadora e ativista dá lugar à irmã que sofre também as consequências do sistema que denuncia. O livro traz muitas informações, algumas bastante técnicas, sobre como funciona o novo “capitalismo racial”, mas ao final, quem escreve é a abolicionista poeta, propondo um “reencantamento do mundo para quebrar o realismo das prisões”. Uma grata surpresa para quem se propôs atravessar o texto, algumas vezes denso, outras de uma lucidez cortante, e encontra no ponto de chegada, especialmente para nós, o terceiro país que mais encarcera no mundo, um convite para pensar outros possíveis para além das grades. |
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