Vou confessar uma coisa pra vocês agora que me fazia sentir vergonha. Uma das características que alimentavam a minha síndrome de impostora: eu era uma péssima leitora. Sempre fui. Eu fazia parte daquela fatia de adultos que passa um ano sem ler um livro completo. Sim, sou uma pessoa que escreve, que se diz autora e que não lia o suficiente.
Longe de mim querer fazer desse texto a minha terapia ou que ele soe como uma justificativa pra eu ter um repertório tão curto, talvez eu desvie para esse lado em alguns momentos devido a minha culpa, mas saiba que o intuito dessa confissão é, na verdade, outro. Eu sei que tem muita gente com a mesma vergonha, e é com elas que eu quero falar. E se você não for dessa fatia, não tem problema, eis uma perspectiva nova pra você mergulhar e compreender.
Existem muitas razões que me levaram a ler pouco: uma provável e não diagnosticada dislexia, minha timidez ao ler em voz alta em aula quando eu era criança, a falta de exemplo dentro de casa, mas uma das mais fortes foi, sim, a televisão. Desde muito jovem eu tenho um fascínio por telas. Comecei a escrever e a desenhar por conta das emoções seguras e aventurescas que as animações, filmes e séries me proporcionaram. Foi a televisão que me trouxe pra esse mundo de criatividade que eu vivo hoje, por isso eu agradeço. Mas por conta do hiperestímulo e dinâmica do audiovisual, ler sempre me pareceu sem graça, me dava preguiça. Claro que não ajudou o fato das leituras obrigatórias do colégio sempre serem histórias as quais eu não tinha nenhum interesse de ler. Mesmo quando tínhamos uma lista para escolher, as opções sempre soavam como histórias que não me divertiriam, ainda mais durante a infância e adolescência onde só me interessava por fantasias e aventuras (lembrando que minha adolescência se deu antes de livros como Jogos Vorazes e outros neste mesmo estilo). Eu não queria ler histórias de cotidiano escolar ou que se passavam nos tempos dos meus avós e bisavós (blergs! Até hoje o gênero Histórico não me apetece). E isso reforçou o pensamento errado de que ler = chato. Depois disso, cresci, comecei a trabalhar, administrar a vida adulta e me vi “sem tempo de ler”.
Eu poderia dizer que foi a faculdade de Escrita Criativa que me fez mudar esse pensamento e começar a ler mais, já que fui reapresentada para obras que não teria lido por vontade própria. Cursando essa graduação sendo adulta, agora eu via um propósito mais prático em ler obras que talvez não fossem me divertir. Eu estava estudando, não era somente lazer. Mas não foi ela quem ajudou a mudar meu hábito de vez. Sabe quem foi? Os tech bros e suas porcarias de IAs plot twist.
Não sei se vocês acharam isso inusitado ou não, mas eu, com certeza, não previ essa virada de chave na minha mente. De repente as IAs estavam aqui ameaçando tudo o que eu sempre valorizei na vida: escrita, artes, entretenimento. Ela vai dominar tudo, pois o intuito do mercado é fazer dinheiro doa a quem doer. Os filmes já estavam chatos e repetitivos antes dela chegar, pois os produtores estão mais interessados em números do que no resultado do que estão produzindo, agora com as IAs vai ser ainda pior. Já eu estou, faz anos, no movimento contrário, entendendo que o que me faz feliz é pensar menos em números e mais em criação artística de conexão. Foi então que entendi que a televisão não tinha mais nada pra me oferecer. Além disso, as telas estavam começando a virar destruidoras de tempo. Todo o seu conteúdo sendo calculado de uma forma que deveria ser criminosa para sequestrar nossa atenção nos emburrecendo e nos tornando viciados em rápida dopamina que, aos poucos, atrofiará nossos lóbulos frontais.
Eu sei, está parecendo mais um texto pessimista sobre como a IA vai destruir tudo, mas não é. A perspectiva do mercado e dos caras que estão comandando ele, com certeza é essa: de que a IA veio pra ficar, que precisamos nos adaptar senão vamos ficar para trás e blá blá blá. Porém ainda existe gente viva no planeta agora que quer material de humano para humano. E é nosso papel como artistas continuar oferecendo isso, pois vai ser assim que vamos comprovar que somos melhores do que um gerador de análise combinatória de artes roubadas. Como podemos proteger essa nossa inovação do roubo é assunto pra outro texto que nem sei se EU sou a melhor pessoa para desenvolver. Nesse momento eu só estou expondo os pensamentos que fizeram diminuir meu tempo em frente a TV, ainda não é a diminuição que eu gostaria, mas creio que já está funcionando.
Existe um sentimento muito delicioso de libertação no momento em que o cérebro da gente finalmente percebe que o tempo em frente a tela foi o tempo em que não vivemos. Isso sim é inutilidade. Claro, também não estou aqui pra dizer pra você abandonar a tv e a internet, seria muito hipócrita eu dizer isso ao mesmo tempo que fico muito agradecida por ter vindo ler o meu texto até aqui. A moral não é explodir a tv e a internet, a moral é dar menos importância e peso pra elas. Podemos ter uma presença online, mas não precisamos que essa presença nos roube o tempo. As únicas pessoas que se beneficiam com isso, estão lá no Vale do Silício com o rabo forrado de dinheiro, enquanto você acha que te faz bem ver aquele vídeo de cachorrinho do Dodo.
Estamos muito infelizes e cansados. O volume de trabalho e o pessimismo sobre o futuro, tudo isso nos faz suplicar por um conforto, por dopamina rápida, por uma risadinha com alguma bobagem na internet, e é assim que estamos sendo sequestrados das nossas vidas, como um molho de chaves balançando na frente de um bebê, enquanto esses caras ficam com toda a grana. O mundo não vai mudar, mas sabe quem pode mudar? A GENTE. Eu mudei, e sou mais feliz agora.
Já fazem alguns bons anos que a minha média de leitura melhorou bastante, e somente em 2026 eu já li 14 livros. Meu recorde. Claro, em comparação a minha irmã de vida, Aribelle, que lê 5 livros por mês, isso não é NADA, mas já é razão pra me sentir muito menos envergonhada do que antes. Hoje eu posso dizer que finalmente li A Metamorfose e fiquei muito triste; O Retrato de Dorian Grey e fiquei surpresa; e que achei Madame Bovary tão chato quanto a vida de uma dona de casa numa cidade pequena, mas não posso negar que faz críticas muito interessantes; e que Eu que nunca conheci os homens transformou meu maior medo em uma história. Tudo isso só foi possível depois que parei de ver shorts, reels e tiktoks. O YouTube deixa as coisas mais fáceis quando vejo thumbnails de vídeos feitos por IA. Até mesmo parei de maratonar séries (o que não está sendo difícil já que saturei dos roteiros enlatados que estão produzindo).
Desde que comecei a levar a sério o meu regime de telas, eu fiquei menos catastrófica, menos depressiva, menos preguiçosa, e finalmente senti que minha vida teve algum avanço, pois antes eu me sentia patinando no mesmo lugar. Meus projetos estão finalmente nascendo e eu me sinto de volta ao meu antigo eu.



Caso você esteja se sentindo perdido, posso contextualizar: Desde o primeiro semestre de 2026 venho planejando meu primeiro livro infantil Tinico diz não, um livro baseado no meu sobrinho Martin e no fato de ele ser mais reservado e não gostar muito de beijos e abraços. A ideia é terminar de desenhar o livro até final deste ano e o lançamento ainda vai demorar um pouco, mas já temos editora e estamos decidindo datas.
Pensando bem, percebo agora que os momentos nos quais eu sinto mais incomodada a me movimentar são os momentos que passo sozinha. Antes de encontrar minhas amigas na Redenção, me estressei de ter de arrumar a mochila, e depois que me despedi delas, estressei porque não queria me atrasar para embarcar no ônibus de turismo. Parece que o nível de esforço precisa se quadruplicar quando sou obrigada a me movimentar sozinha pelo mundo.
(foto por uma das minhas colegas de trilha - Nara)
Esqueci de comentar, a trilha chamava-se Via Láctea, e o propósito era ver os planetas e as constelações na beira da lagoa, o que não estava parecendo muito promissor, pois a previsão era de céu encoberto, e durante a viagem inteira as nuvens iam e voltavam. Não só isso, mas o frio recém tinha começado a dar suas caras aqui no sul, e eu que não sou muito fã, estava preocupada com o quão frio e ventoso estaria durante a trilha pela beira do lago. Porém todas essas preocupações (que pra mim não eram nem de perto tão grandes quanto as preocupações do início da minha manhã) se revelaram inúteis também. O frio não estava nada intenso, tanto que bastou que eu usasse uma touca, não havia vento, somente uma brisa e as nuvens começaram a se dispersar.
(foto por Ariane Rauber)
(foto pelo colega de trilha Wagner)
(foto pelo colega de trilha Hairton Cezar)
Curiosa e angelical. Pequena como uma formiga. Fitando cada detalhe do meu corpo em transe.

