Carta do Jardim nº 1
A beleza desordenada dos seus restos
Sinto que, a cada novo projeto, eu recomeço.
Não porque tudo tenha terminado, mas porque alguma parte de mim insiste em morrer antes que a anterior possa se acomodar. Talvez seja por isso que nunca consegui construir uma obra definitiva. Sempre existe um corpo abandonado às margens do caminho, um caderno interrompido, uma fotografia que nunca foi publicada, uma frase que preferiu permanecer incompleta.
Preciso que seja assim: dócil e voraz.
Existe uma delicadeza que só nasce quando aceitamos a fome.
Desde pequena, o mundo me inquieta por tudo aquilo que passa despercebido. Nunca foram os grandes acontecimentos que me atravessaram, mas os pequenos deslocamentos: o instante em que alguém desvia o olhar, uma folha esquecida sobre a calçada, a poeira acumulada no canto de uma janela, uma palavra que ninguém respondeu.
Conforme a maturidade dos dias me coube, revisitei muitas dessas inquietações. E, em cada retorno, surgia uma camada nova de entendimento. Um entendimento quase sempre decepcionante, porque crescer também é descobrir que as coisas, muitas vezes, são exatamente como imaginávamos que fossem.
E, ainda assim, continuamos tentando compreendê-las.
Penso que a poesia não está nas palavras.
Ela está na própria energia vital.
E a vida é extremamente cruel.
Talvez por isso viver seja um compromisso sério demais para a poesia.
Escrever nunca foi um gesto contemplativo para mim.
É um gesto visceral.
Quase fisiológico.
Como quem precisa abrir o próprio corpo para verificar se ainda existe alguma coisa pulsando ali dentro.
Talvez seja por isso que aquilo que nasce da víscera provoque tanto desconforto.
Tudo o que vem do corpo costuma ser rapidamente transformado em pecado, repulsa ou vergonha.
Ou em desejo.
Depende menos do que é mostrado do que da história que cada pessoa traz consigo para olhar.
Aprendi isso cedo.
Penso, hoje, que muitas pessoas chegaram até mim procurando um tipo de nudez completamente diferente daquela que eu realmente oferecia.
Tudo bem.
Talvez elas também estivessem procurando outra coisa sem saber.
Talvez eu também estivesse.
No fim das contas, foi esse desencontro que corrigiu um erro antigo do meu útero e me obrigou a nascer outra vez.
Curiosamente, tudo isso aconteceu graças ao capital.
É estranho admitir que o dinheiro também possa produzir renascimentos.
Mas seria desonesto fingir que não.
Toda história bem contada guarda uma região onde ninguém entra.
O mistério não existe para esconder.
Existe para proteger.
Sempre que alguém me pergunta sobre Penumbra Molhada, imagino uma árvore antiga.
Grossa.
Cheia de galhos secos.
Marcada pelo tempo.
Quase ninguém olha para ela.
Todos caminham diretamente até uma única flor que nasce em um de seus galhos.
Uma flor absurdamente molhada.
Segura da própria beleza.
Quase insolente.
As pessoas costumam acreditar que é ali que mora a obra.
Mas nunca foi.
A obra sempre foi a árvore.
A flor é apenas o instante em que ela resolveu se mostrar.
Talvez por isso seja tão comum encontrar pessoas interessadas em arrancar a flor para levá-la embora.
Pouquíssimas desejam cultivar a árvore.
Cultivar exige tempo.
Arrancar exige apenas um gesto.
Este Jardim nasce exatamente dessa diferença.
Não para produzir flores.
Nem para protegê-las.
Mas para cuidar da terra onde elas insistem em nascer.
Os Ecos do Jardim serão exatamente isso.
Pequenos sons que escapam pelos muros.
Às vezes um poema.
Às vezes uma fotografia.
Às vezes apenas uma frase.
Algumas pessoas permanecerão apenas ouvindo esses ecos.
Outras decidirão atravessar o portão.
E haverá aquelas que, com o tempo, escolherão habitar este lugar.
Nenhuma dessas formas de presença é maior do que a outra.
Cada uma corresponde ao momento em que conseguimos nos aproximar de um jardim.
Obrigada por chegar até aqui.
Talvez esta seja apenas a primeira carta.
Ou talvez seja o primeiro canteiro.
As duas coisas me parecem igualmente bonitas.
Seja bem-vinda.
Seja bem-vindo.
O Jardim acaba de abrir seus portões.
E, nós vamos construir isso juntos.
Com paixão,
Lírio V.






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