Tenho uma sede de vísceras.
Há uma violência que tantas vezes associam a elas. E, desconfio que seja porque justamente ali... É onde a vida ainda se recusa a mentir. As vísceras não possuem a elegância das palavras, nem a disciplina da razão. Elas apenas existem. Pulsam. Contraem-se. Sangram. Persistem.
Talvez seja por isso que me atraiam tanto.
Passo boa parte dos meus dias pensando em como me relaciono com o mundo e, inevitavelmente, com o outro. Existe algo profundamente misterioso no encontro. Claro que há naquele que se anuncia, mas também, penso naquele que acontece silenciosamente, quando uma presença modifica a temperatura da outra sem que nenhuma palavra precise ser dita.
Começo a acreditar que tocar a pele seja uma das formas mais delicadas de linguagem.
Na pele há a resposta do toque.
Ela responde ao medo, à lembrança, ao desejo, ao frio, ao calor e até mesmo àquilo que ainda não conseguimos nomear.
O arrepio, por exemplo, talvez seja uma espécie de pensamento do corpo.
Uma resposta anterior à consciência.
Como se existisse em nós uma inteligência antiga, capaz de reconhecer aquilo que ainda não compreendemos.
Gosto de imaginar que um arrepio seja apenas o espírito lembrando ao corpo que ele continua vivo.
Vivemos tentando domesticar tudo aquilo que pulsa.
Educamos os gestos.
Controlamos as palavras.
Aprendemos a esconder a fome, o choro, a raiva e o desejo como quem organiza cuidadosamente uma casa para receber visitas.
Mas o sangue continua circulando.
Indiferente.
Nenhuma educação foi capaz de convencê-lo a deixar de existir.
Talvez seja justamente por isso que eu encontre tanto erotismo nele.
Não no espetáculo do corpo.
Nem na nudez.
Muito menos naquilo que tantas vezes confundimos com desejo.
Penso que o mais erótico da vida seja o próprio sangue.
Porque ele não pede licença para atravessar o corpo.
Ele conhece todos os caminhos antes mesmo de nós.
Ele toca cada órgão sem constrangimento.(E, através dele, há a excitação).
Habita cada dobra.
Leva calor às extremidades.
É íntimo de tudo aquilo que somos antes mesmo de aprendermos nossos próprios nomes.
Talvez o erotismo seja isso.
Uma circulação.
Não uma posse.
Uma aproximação que aquece sem precisar capturar.
Tenho desconfiado de todas as formas de desejo que terminam na apropriação.
Talvez porque cultivar sempre tenha me parecido mais bonito do que possuir.
Há algo profundamente amoroso em permanecer ao lado de uma árvore durante anos, sem exigir que ela floresça antes do tempo.
O calor também conhece essa paciência.
Ele não transforma pela força.
Transforma pela permanência.
É o calor que amadurece os frutos.
Que torna a argila cerâmica.
Que modifica a água até que ela se torne vapor.
Que cicatriza uma pele.
Que faz uma semente romper a própria casca.
Começo a acreditar que toda transformação verdadeira acontece porque algo permaneceu aquecido durante tempo suficiente.
Sem essa ideia de "porque foi violentado."Retire essa camada grosseira, essa violência como impulso.
Talvez eu escreva para produzir esse calor.
Talvez toda carta seja apenas uma tentativa de manter acesa uma pequena fogueira entre quem escreve e quem lê.
Se for assim, obrigada por permanecer perto dela.
Sexta-feira nos encontramos de novo, para guiarmos nosso olhar para o que há de erótico na vida por essa abordagem "quentinha", com quem já está na travessia e para quem deseja fazer parte. ♥
Com paixão,
Lírio V.






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