Meu amor,
Há histórias que escutamos tantas vezes que deixamos de perceber o peso das palavras.
Eva foi uma delas.
Durante muito tempo, bastava que alguém pronunciasse seu nome para que outra palavra viesse logo atrás: culpa.
Nunca estranhei essa associação. Cresci ouvindo-a com a mesma naturalidade com que se aprende o nome das árvores ou das estações do ano.
Só mais tarde me dei conta de que quase nunca me contaram... "quem era aquela mulher antes da maçã."
Pouco se dizia sobre o que ela via quando caminhava pelo jardim.
Sobre o que sonhava....
Sobre as perguntas que talvez guardasse em silêncio....
Talvez porque perguntas sempre tenham sido "perigosas" quando feitas por mulheres. Sabe?
Não perguntas grandiosas. As pequenas... simples... imperceptiveis...
Aquelas que surgem enquanto lavamos a louça, voltamos para casa ou olhamos pela janela sem motivo algum.
"E se eu pudesse viver de outro jeito?"
Às vezes imagino Eva parada diante da árvore por um longo tempo.
Não vejo precipitação.
Nem desafio.
Vejo hesitação.
Vejo alguém que compreende, ainda sem palavras, que algumas escolhas não mudam apenas o caminho.
Mudam quem somos.
Há conhecimentos que não chegam como resposta.
Chegam como uma mudança no corpo.
Depois deles, a paisagem continua a mesma, mas já não conseguimos habitá-la da mesma maneira.
Penso que toda mulher conhece esse instante.
Não importa a idade.
Há um momento em que alguma coisa deixa de caber.
Uma frase.
Um casamento.
Uma religião.
Um amor.
Uma casa.
Ou a versão de si mesma que aprendeu a oferecer ao mundo.
É um deslocamento quase invisível.
Por fora, tudo permanece.
Por dentro, uma pele antiga começa a romper.
Talvez seja por isso que continuo voltando a essa história.
Descobrir se Eva errou?
Acho que está mais para perguntar o que nasce numa mulher quando ela já não consegue fingir que não sabe...
Talvez a expulsão do paraíso tenha sido apenas o primeiro nome que deram ao amadurecimento.
E, para que você consiga acompanhar toda essa jornada, precisa ATRAVESSAR O JARDIM ♥
Até sexta.
Com paixão e sede de viver,
Lírio V.
Arte Digital autorreatrista,
"A maçã Mordeu a Eva", 2025






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