Tenho voltado a desenhar. Acredito que por conta do meu excesso de contato com as redes sociais e a overdose que estamos com as "alineas perfeitas" da inteligência artificial. Sabe?
Desde logo, devo afirmar que acredito na I.A como instrumentalização. Mas, não é essa pauta que eu quero trazer agora. Na verdade, só sinalizei isso, porque foi o excesso do mal uso dela que me trouxe de volta ao papel. Mas, o que acontece depois?
Talvez porque eu não me considere “desenhista”, somente “alguém que desenha”, parece que, embora eu utilize essa linguagem para rascunhar ideias, elas estão sempre esperando outra matéria.
Vou trazer um pouco daquilo que, por muito tempo, seria entendido por mim como “algo a ser jogado fora”. E, nós vamos observando esse processo criativo... juntos!
É importante mencionar que esse rascunho surge durante o processo criativo da dramaturgia do "Papel de Arroz: antes do despertar a vigília" que escrevi e estreiei junto com a Lúcia Oliveira no MAC (Mostra de Artes Cênicas de Mogi das Cruzes), em 22/08/2026.
Não consigo precisar se as imagens surgiram a partir das improvisações físicas ou se alguns movimentos começaram a existir porque antes haviam aparecido no papel. Talvez essa dúvida seja uma das coisas que mais me interessam agora.
Quando penso em artes integradas dentro de um processo criativo, penso justamente nesse lugar em que já não sei dizer onde uma linguagem começou e a outra terminou. A poeticidade vai encontrando formas diferentes de existir. Aparece no corpo, escorre para o desenho, atravessa a dramaturgia, alcança o objeto, retorna ao corpo. As linguagens se complementam, mas também prosseguem pulsando e se desenvolvendo para além daquilo que inicialmente as convocou.
Ao olhar para o desenho, entendi algumas coisas sobre o espaço cênico de Papel de Arroz. Entendi que ele também precisava acontecer em círculo. Que a madeira estaria presente. E que o corpo carregaria uma qualidade de movimento próxima à dos cascos (pelo peso, pelo atrito, pela repetição e pela maneira de reconhecer o chão.) E, que em tudo isso, havia certa ancestralidade.
Nada disso apareceu primeiro como uma decisão cenográfica organizada. Estava no desenho antes que eu conseguisse formular. A imagem parecia saber alguma coisa sobre a cena e, aos poucos, fui tentando escutá-la.
E assim, surgiu a cadeira (que antes era do meu nonno, e fui adaptando-a como um objeto cênico, em algum momento podemos falar sobre toda a transformação e ancestralidade dela, mas, por ora, quero apenas trazê-la como linha contínua do pensamento). Vamos observar:
Quero aproveitar, e trazer brevemente uma imagem do que foi a estreia de Papel de Arroz, sem querer aqui também ampliar a temática sobre o espetáculo em si, mas, apenas sinalizar a ligação com o rascunho em relação a espacialidade e materialidade. Observe:
É nesse ponto que consigo compreender melhor o que as artes integradas significam dentro do meu processo. Uma linguagem não chega apenas para ilustrar aquilo que a outra já resolveu. Elas pensam juntas. O desenho interfere no espaço, o espaço altera o corpo, o corpo produz outra escrita e aquilo que surgiu como rascunho continua pulsando dentro das demais matérias. E é isso que quero trazer como reflexão para você...
Mas o desenho continuou.
Papel de Arroz estreou. O círculo saiu do papel e tornou-se espaço cênico. A madeira encontrou a cena. A qualidade dos cascos apareceu no corpo. A dramaturgia respirou diante do público.
Ainda assim, alguma coisa permaneceu pulsando naquelas folhas.
E agora?
Agora que o desenho já havia cumprido sua função dentro do processo, o que fazer com aquilo que continuava vivo nele?
Foi quando voltei aos rascunhos. Já não precisava perguntar o que eles poderiam oferecer à cena. A cena havia acontecido. Pela primeira vez, talvez, pude olhar para eles sem exigir que servissem para alguma coisa.
Comecei a fotografá-los e a fazer pequenas montagens digitais. Repeti corpos, aproximei figuras, alterei cores, aumentei objetos, criei manchas. Não sabia exatamente o que estava procurando. Queria apenas acompanhar a imagem um pouco além do lugar onde normalmente eu a abandonaria.
E foi então que o desenho começou a devolver outras coisas. E, venho trazer um dos resultados, apenas para observamos juntos:
Por enquanto, chego a esta imagem.
Depois da experiência cênica, acrescentei a atmosfera azul e uma chave escura, desfocada, atravessando o corpo. Ela cresceu até perder sua proporção de objeto. Ainda não sei o que abre (ou por que precisou aparecer justamente ali, em seu arquétipo pulsante).
Talvez seja esse o ponto em que estou agora: diante daquilo que o desenho já revelou e daquilo que ainda não consigo nomear.
Este Eco do Jardim é apenas uma introdução. A partir de agora, quero compartilhar mais do processo criativo enquanto ele acontece: os desenhos, os textos, as referências, as improvisações, as imagens que retornam e as linguagens que continuam agindo umas sobre as outras.
Por enquanto, deixo a chave onde ela apareceu.
No corpo, dentro do círculo.
E, o que acontece depois?
E te convido a atravessar o jardim, o que você acha?
Te espero do lado de lá... ao longo desse mês! ♥






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